A exploração ilegal e o contrabando de minerais críticos
se tornaram um dos principais desafios do setor de mineração.
A exploração ilegal
e o contrabando de minerais críticos se tornaram um dos principais desafios do
setor de mineração. Nas alfândegas da Receita Federal, o problema tem chamado
atenção pelo volume, escala e velocidade de expansão.
Do segundo semestre
de 2024 para cá, mais de 50 mil toneladas de minerais classificados como estratégicos
ou críticos tentaram sair do Brasil de forma irregular por diferentes portos.
Dados obtidos pela
Folha junto à Receita Federal em Santos (SP) mostram que, nos últimos dois anos,
943 contêineres foram interceptados por alfândegas brasileiras. Eles estavam
carregados ilegalmente com cobre, manganês, ilmenita, zirconita, quartzo e
outros minerais.
As apreensões somam
25 mil toneladas. O volume retido só não é o dobro porque uma única carga com
25 mil toneladas de manganês ilegal conseguiu ser exportada em um navio a
granel do porto de Belém (PA) antes da ação da Receita.
O episódio rendeu
uma multa de R$ 10 milhões. “O Brasil ficou muito focado no ouro e diamante e
esqueceu de ver os diversos outros bens naturais que estão na moda por causa
dessa disputa geopolítica, mas que já estavam saindo do país há muito tempo”,
afirma Rômulo Brandão Neto, chefe da equipe de operações de vigilância e repressão
na exportação da Receita Federal em Santos.
A título de
comparação, as 25 mil toneladas apreendidas representam cerca de 1% de todo
cobre e manganês legais exportados pelo Brasil no mesmo período, segundo dados
do Comex Stat.
O cobre — fundamental
para tecnologias de transição energética e baterias de carros elétricos— foi o
minério mais interceptado. De 2024 para cá foram mais de 10 mil toneladas
apreendidas, em 395 contêineres, nos portos de Belém, Santos, Pecém (CE),
Itajaí (SC), Salvador e Vitória.
O segundo mineral
mais recorrente nessas operações é o manganês —usado em aço e baterias.
Foram quase 8.000
toneladas apreendidas em três portos.
Em seguida
aparecerem a ilmenita (fonte de titânio, estratégico para a indústria de
defesa), o quartzo (associado ao
silício, fundamental para semicondutores e painéis solares), a zirconita (usada
em reatores nucleares), além de cargas com outros minérios que continham ouro
ilegal.
Segundo Rômulo, só
uma investigação policial pode concluir quem são os grupos que estão tentando
comprar esses minerais ilegais. “Mas tem um destino que responde pelo maior
volume, que é o continente asiático, a China.”
Procurada, a Polícia
Federal disse que não tinha porta-voz disponível para comentar o assunto.
OS MINERAIS MAIS
APREENDIDOS PELA RECEITA
Do segundo semestre
de 2024 para cá
Cobre
10.441.082,57 kg
(395 contêineres)
Manganês
7.869.660,00 kg (291
contêineres)
Ferro + cobre
2.802.675,00 kg (102
contêineres)
Ilmenita
2.310.000,00 kg (86
contêineres)
Derivado de minério
contendo ouro
366.105,00 kg (14
contêineres)
Zirconita
147.240,00 kg (6
contêineres)
Ganga com tântalo
17.720,00 kg (1 contêiner)
Cassiterita
250 kg
Rômulo afirma que a
principal irregularidade é o uso de notas fiscais frias para “esquentar” as cargas.
Diferentemente do
contrabando de ouro e de drogas, que costumam ser escondidos em cargas legítimas,
os minerais críticos exigem volume significativo e precisam ser transportados
de forma visível.
Como não é possível
ocultar a carga física, a ilegalidade é cometida na falsificação da história.
Os criminosos usam
empresas de fachada e “laranjas” com licenças verdadeiras emitidas pela ANM
(Agência Nacional de Mineração) para “esquentar” minérios extraídos de forma
ilegal.
As licenças costumam
ser vinculadas a um terreno legalizado e autorizam a extração de determinada
quantidade de minério.
Usando esse
documento, a empresa de fachada emite notas fiscais falsas para acobertar volumes
maiores de minerais extraídos em outros lugares.
“São empresas que
têm licença para mineração, guia válida, licença ambiental válida, mas que só usam
isso para emitir notas fiscais frias para outra empresa realizar exportação.
Esse é o padrão.
O Brasil está
inundado de licenças emitidas para pessoas que as usam só para notas fiscais frias”,
afirma Rômulo.
Em nota, a ANM
(Agência Nacional de Mineração) diz que o comércio de minério de origem ilegal produz
prejuízos que vão além da perda direta do patrimônio da União.
“Ele distorce a
concorrência em desfavor das empresas que cumprem a legislação, pode implicar
evasão de receitas públicas e compromete a credibilidade da produção mineral
brasileira perante compradores e mercados internacionais”, afirma.
Segundo a ANM, estão
na agenda estratégica da agência ampliar a capacidade de rastrear a origem do
minério e integrar informações minerárias, fiscais, logísticas e aduaneiras.
INFILTRAÇÃO DO CRIME
ORGANIZADO
Pablo Cesário,
presidente do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), afirma que a mineração
ilegal é uma das maiores preocupações da entidade.
Ele diz que o
problema deixou de ter um aspecto artesanal e se transformou numa atividade de escala
industrial. A mudança foi impulsionada pela alta de preços e pela infiltração
de facções criminosas.
“O fenômeno que
estamos enfrentando é parecido com que existe em outros setores da economia e
que acabou se transformando na [Operação] Carbono Oculto, mas que também se vê muito
claramente no [setor de] tabaco, bebidas, defensivos agrícolas, que é a
infiltração do crime organizado nas redes formais de empresas”, diz.
Segundo Pablo, o
crime organizado passou a se interessar pelos minerais críticos porque os preços
globais explodiram.
Embora haja um
debate geopolítico mundial sobre o tema, ele avalia que o aumento do contrabando
tem origem financeira.
DINAMISMO DO
CONTRABANDO E FALTA DE INTEGRAÇÃO PÚBLICA
Rômulo alerta para a
rápida migração das rotas de contrabando. Ele conta que, em 2024, a Receita
Federal começou um trabalho no Pará, no porto de Vila do Conde, focado em
exportações de minerais ilegais.
“Identificamos que
mais de 90% das exportações de minério feitas por meio de contêineres naquele
estado eram de origem ilícita ou estavam envolvidas em algum contexto de
fraude”, afirma.
Diante do cerco,
Rômulo diz que as exportações de minério por meio de contêineres caíram para zero
na região.
No entanto, as redes
criminosas migraram para outros portos, como Pecém, no Ceará, e posteriormente
para Santos, Salvador, Itajaí e Paranaguá (PR).
Ele lamenta a
existência de gargalos que transformam a tarefa de interceptar minerais ilegais
em operações para “enxugar gelo”.
Segundo o agente, as
forças policiais e ambientais realizam operações de combate e destroem dragas e
garimpos no interior do país.
No entanto, diz, as
aduanas dos portos nunca são informadas sobre quais CNPJs foram autuados. Sem o
bloqueio desses dados, as cargas continuam sendo escoadas pelos portos do Brasil.
“Precisa ter um
trabalho conjunto. Quando você vai num garimpo, apreende a máquina e o estoque,
isso é louvável. Mas se não tivermos consciência de que parte daquela
mercadoria que estava ali já está em trânsito para os 38 portos do Brasil ou
está estocada em algum local para ser escoada, o trabalho não foi tão efetivo”,
afirma.
Fonte: noticia UOL por popularnews
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