No Porto de Santos acontece de tudo, até espetáculo improvisado
de dança
Antigamente, os
postos fiscais — posteriormente chamados de gates
(portões) e atualmente de posto de fiscalização portuária (PFP) — estavam longe
de ter a estrutura e a tecnologia atuais: havia apenas um acesso de pedestres,
com passagem por dentro do posto, e uma entrada de veículos com portões pesados
de ferro, difíceis de abrir e fechar.
A identificação era
feita por amostragem; o recurso da época era o “cara-crachá”, baseado no feeling, na experiência e na observação
da roupa, do jeito de andar e de se comportar. Era gente demais para conferir,
e o movimento no Porto era bem mais intenso do que é hoje.
Não tinha como
relaxar. Quando havia dois guardas no posto — o que nem sempre acontecia —
ficava um no acesso de pedestres e outro no de veículos.
Certo dia estava
acontecendo uma operação de “vira” — descarga do navio direto para o caminhão,
que levava a barrilha para um armazém e voltava para carregar de novo, num
vai-e-vem incessante.
Quando os guardas
assumiram o posto, por volta das 5h30, havia duas filas: uma de membros da
Associação dos Caminhoneiros e outra dos avulsos que faziam o vira. Os
associados tinham virado a noite trabalhando, e os avulsos chegaram pela manhã
querendo passar na frente. E ali estava armado o cenário para a confusão.
O guarda portuário
Santana — apelidado de “Idi Amin” — foi ver o que estava acontecendo e acabou
cercado pelos caminhoneiros, que começaram a culpá-lo por ter deixado alguém
furar a fila. Até que um deles falou:
— Esses dois
guardas, o gordinho e o magrinho, é que causaram essa confusão!
Santana era falante,
alegre, comunicativo, mas não gostava que ninguém encostasse nele. Quando os
caminhoneiros começaram a empurrá-lo, praticamente chamando para a briga, ele
aceitou o convite. Depois de levar um tapa no rosto, deu um passo para trás e
mandou um soco no queixo de um deles, deixando o homem estendido no chão como
se tivessem puxado o fio da tomada.
Ribeiro, que estava
em frente ao portão do PF-08, viu a aglomeração em volta do parceiro e partiu
para cima. Saiu correndo e entrou na roda com as armas que sabia usar: uma
“estrela”, um “rabo de arraia”, depois uma rasteira e até uma cabeçada.
Enquanto isso, Santana abriu o arsenal: cruzado de direita, jab e o que mais
viesse. O tumulto virou praticamente uma dança, um espetáculo coreografado, no
ritmo do capbox — mistura de capoeira com boxe.
No meio do tumulto,
passou pelo local a ronda dos agentes — guardas portuários à paisana, em
viaturas descaracterizadas — que chamaram reforços e entraram também na dança.
Quando as viaturas
de apoio chegaram, havia vários caminhoneiros com escoriações. Uns correram,
outros fizeram cara de paisagem e alguns socorreram os feridos, levando os
companheiros para a Santa Casa de Santos.
Os dois
caminhoneiros que iniciaram o tumulto foram detidos e encaminhados para a 2ª
Subsede, localizada em um armazém externo ao lado do acesso à Rua Luiza Macuco
— área que depois seria demolida para a construção da Avenida Perimetral.
Na instalação da
Guarda, os detidos passaram por um tratamento de “harmonização facial”, antes
de serem apresentados no 4º Distrito Policial de Santos. Quando chegaram lá, já havia vários
caminhoneiros prestando queixa contra os guardas por agressão.
Eles gritaram:
— Foram eles! O
gordinho e o magrinho!
O delegado respondeu
na hora:
— Vocês não têm
vergonha de vir aqui dizer que, estando em quinze, apanharam desses dois?
O que os
caminhoneiros e o delegado não sabiam é que o gordinho, Santana (Idi Amin) —
apelido por causa da semelhança com o ditador que foi presidente de Uganda
entre 1971 e 1979 — era treinador de boxe no Clube de Regatas Tumiaru, em São
Vicente. Dizem que foi até sparring de Adilson Maguila. Já o magrinho era
Ribeiro, nascido e criado no Morro da Nova Cintra, conhecido como “Espigão”,
apelido recebido pelo Mestre Bandeira, pioneiro da capoeira na Baixada Santista
desde 1969.
No dia seguinte, 3
de agosto de 1988, o assunto virou manchete do jornal local: “Desentendimento
no cais causa tumulto”.
Inconformado com a
versão do boletim de ocorrência, que apontava os motoristas como causadores do
tumulto, o Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos fez um protesto
em frente ao fórum da cidade. Alegaram que os motoristas foram algemados e
espancados. O juiz determinou a abertura de inquérito policial para apurar a
denúncia.
Com a abertura do
processo, os guardas procuraram o comandante para pedir que a CODESP –
Companhia Docas do Estado de São Paulo designasse um advogado. Ao saber da
presença deles, o comandante disse à secretária:
— Encaminha esses
arruaceiros para falarem com o tenente Navarro.
Navarro era chefe do
setor de policiamento, ex-PM — naquela época, muitos cargos de chefia na
Guarita ainda eram ocupados por militares, herança dos tempos da ditadura.
Ao serem recebidos,
ouviram:
— Não posso fazer
nada. Nem na polícia existe isso. Vocês vão ter que se virar.
Por sorte, três
meses depois, os guardas passaram a ter direito à sindicalização. Procuraram
então o Benedito, presidente do sindicato dos portuários que, sabendo da
situação, designou um advogado para defendê-los.
O processo correu na
justiça por quase cinco anos, até que os guardas foram inocentados. Muitas
testemunhas confirmaram que eram dois contra quinze caminhoneiros.
Já os caminhoneiros
não conseguiram explicar direito o que tinha acontecido. Os depoimentos foram
contraditórios. Não souberam dizer onde teriam sido agredidos, quem bateu em
quem, nem informar corretamente o endereço da 2ª Subsede, no armazém XXIX, onde
disseram ter recebido o tal “tratamento facial”.
Moral da história:
antes de chamar alguém para dançar, é bom saber quem são os dançarinos e qual é
o ritmo da música.
Texto: Carlos
Carvalhal
Ilustração: Gerada por
IA — Inteligência Artificial
* Esta é uma
história memorialista, de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos
envolvidos são fictícios. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque
quem conta um conto sempre aumenta um ponto.
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