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OPERAÇÃO INTERAGÊNCIA LOCALIZA CERCA DE 100 KG DE COCAÍNA EM CASCO DE NAVIO NO PORTO DE SANTOS

Operação interagências envolveu a Polícia Federal (PF), Marinha do Brasil (MB) e Guarda Portuária (GPort) Na manhã da última sexta-feira (...

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

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CASOS DO CAIS: A NOITE DA PIZZA NA DELEGACIA


Depois de horas, quase no início da madrugada, quando o término do registro do flagrante estava próximo, eis que acontece o inesperado

O local onde hoje fica a Capitania dos Portos do Estado de São Paulo, entre os Armazéns 27 e 29, no Bairro Macuco, conhecido como Cais da Mortona, é um local histórico e popular no Porto de Santos.

O nome "Mortona" vem de um antigo estaleiro e oficinas de blocos de pedra que existiam na área, pertencentes à Companhia Docas de Santos - CDS.

Antigamente, ali funcionava o Departamento Marítimo da Companhia, responsável pela manutenção das embarcações.

Na década de 1990, os prédios administrativos foram cedidos à Guarda Portuária - GPort, passando a abrigar sua sede administrativa e operacional. A partir daí, além de papelada, café frio e rádio chiando, passaram a morar ali muitas histórias dignas de roteiro de cinema.

Para combater as "arriadas" - modus operandi onde as mercadorias furtadas a bordo dos navios são descidas por cordas para pequenas embarcações - a chefia da Guarda resolveu implantar o patrulhamento marítimo.

Como o Departamento Marítimo já vinha sendo sucateado, com embarcações encostadas, paradas ou esquecidas em algum canto daquele cais, surgiu a brilhante ideia: “vamos pegar uma dessas”. Afinal, se flutuava, estava valendo.

O senhor Armando, chefe do departamento, solicitou ao Departamento de Engenharia um profissional habilitado para acompanhar a reforma e adaptação da lancha Diana X. Naquela época, engenheiro não faltava: em cada sala havia um, altamente capacitado, só aguardando uma missão — qualquer missão.

O escolhido foi o engenheiro Chico, incumbido de transformar a lancha que, antes de ser docada, transportava trabalhadores do porto até a Usina Hidrelétrica de Itatinga, em Bertioga. Era praticamente um ônibus aquático.

Foram selecionados dois guardas e um inspetor por turma. Fizemos o curso de arrais amador — exigência da época — e encaramos provas teóricas e práticas na Capitania dos Portos. Saímos todos devidamente habilitados, confiantes e cheios de esperança para operar a embarcação.

Terminamos o curso e nada da nossa lancha ficar pronta. Foram oito meses de espera até enfim chegar o dia dela ir pra água. O problema é que a lancha não acompanhou nosso entusiasmo e a nossa empolgação durou pouco.

Na reforma, a lancha foi encolhida sem dó nem piedade. As longarinas foram cortadas, a casaria ficou menor e os dois motores Mercedes-Benz foram realocados para o meio da embarcação, alterando completamente o eixo de equilíbrio. O resultado foi uma lancha com personalidade própria: quando acelerava, em vez de empinar, ela embicava, como quem dissesse “calma que eu vou, mas do meu jeito”.

Antes da reforma o trajeto Santos–Bertioga era feito em cerca de 40 minutos. Depois, o mesmo tempo era gasto apenas para ir da base de atracação, no Canal da Mortona, até o cais do Saboó.

Mas como a implantação do patrulhamento marítimo já tinha sido divulgado na imprensa, então era aquilo ou nada. Fomos combater o crime pelo lado de mar com uma embarcação lenta, o mesmo uniforme de sempre, um rádio HT, um revólver calibre 38 com cinco balas no tambor, um cinturão de couro que nos faria afundar caso caíssemos na água, e nenhum colete à prova de balas. Era literalmente no peito, na raça — e na fé.

Com essa estrutura, o efeito era muito mais moral do que operacional. Quando chegávamos ao local da ocorrência, os malacos já tinham empreendido fuga. Nosso sucesso dependia exclusivamente de estar no lugar certo, na hora certa — o que nunca acontecia.

Numa sexta-feira, no turno das 18 às 24 horas, patrulhando rumo à entrada do Canal do Estuário, na Ponta da Praia, ao fazer a curva do Ferry Boat, junto ao cais do Armazém 35, a equipe finalmente deu sorte.

Havia uma arriada em andamento em um navio atracado na Libra Terminal 37. Caixas desciam por cordas até uma embarcação posicionada junto ao costado do navio.

Ao ver a cena, o inspetor Paulo Sérgio, no comando da lancha, gritou com entusiasmo digno de filme de ação:

— Félix, toda força no motor! Vamos finalmente realizar uma apreensão!

Ao perceber a aproximação da Guarda, o condutor da embarcação suspeita iniciou a fuga, atravessando o canal em direção à comunidade do Jardim Conceiçãozinha.

Ciente das limitações da nossa lancha, Félix pensou rápido: mudou a rota, traçou uma linha transversal e seguiu direto em direção àquela comunidade, tentando chegar antes do meliante.

Durante a travessia do canal, o fugitivo foi jogando algumas caixas ao mar para ganhar velocidade, e começou a remar cada vez mais rápido.

Depois de alguns minutos de tensão — e muita paciência — a guarnição conseguiu realizar a abordagem a poucos metros da margem. Então, o guarda Santos pulou naquele barco e conseguiu realizar a detenção. A embarcação, os remos e as caixas — contendo máquinas de escrever da marca Olivetti — foram apreendidos. Algumas caixas lançadas ao mar foram recuperadas; outras, devido ao peso, depois de algum tempo, foram afundando.

O detido e o produto do furto foram encaminhados para a sede da Polícia Federal, na Praça da República, no centro de Santos.

Já na delegacia, o delegado de plantão perguntou:

— Quem vai apresentar a ocorrência?

O inspetor Paulo Sérgio respondeu na lata:

— Quem tem que aparecer são os meus guardas.

E designou Santos como condutor — afinal, foi ele quem pulou na embarcação — e Félix como testemunha. Paulo Sérgio, por sua vez, aplicou a clássica saída à francesa e desapareceu discretamente.

Registrar flagrante naquela época era uma verdadeira maratona burocrática. Registro da ocorrência, termos de declaração do preso, do condutor, da testemunha, apreensão da embarcação, do material… tudo datilografado em máquinas de escrever que já tinham visto dias melhores.

Depois de horas, quase no início da madrugada, quando o término do registro do flagrante estava próximo, eis que acontece o inesperado.

Paulo Sérgio reaparece triunfante, com duas pizzas — uma de muçarela e outra de calabresa — em uma mão, e um refrigerante de dois litros na outra, anunciando em alto e bom som:

— Doutor, eu trouxe uma pizza pra comemorar!

E, como se não bastasse, soltou sua risada característica, em tom elevado:

— Ah, ah, rá, rá, rá, rá, RÁ!

O delegado olhou para os guardas, para o escrivão, pensou por alguns segundos… e caiu na risada junto com todo mundo.

A gargalhada de Paulo Sérgio era única: alta, alegre, espalhafatosa, acompanhada de gestos largos e o balanço dos cabelos compridos. Ele era franzino e tinha um perfil que fazia ele se parecer como um sósia do cantos Roberto Carlos — comparação que ele adorava ouvir.

Depois de todos comerem a pizza, Paulo Sérgio explicou que aquela havia sido a primeira apreensão do patrulhamento marítimo da Guarda Portuária. E essa conquista, tão improvável, merecia comemoração.

Como eu tinha trabalhado das 12h às 18 h e não dobrei a minha jornada, não participei dessa ocorrência. No dia seguinte, quando cheguei ao meu posto no Patrulhamento Marítimo, meus colegas me contaram que eu havia perdido a lendária “Noite da Pizza na Delegacia”, com direito a perseguição lenta, risada alta e pizza fria.

O fato curioso é que anos depois, em 2005, já ocupando o cargo de Inspetor II, contei essa história a um grupo de guardas portuários recém-admitidos. Ao imitar a risada do Paulo Sérgio, um jovem chamado Yago levantou a mão e disse:

— Inspetor Carvalhal, esse era o meu pai.

Realmente àquela risada era muito característica, quem a ouvisse e conhecesse o autor saberia identificar de quem era, e eu a imitava como ninguém na Guarda.

Em seguida perguntei ao Yago:

— Como vai seu pai? Por onde ele anda?

Ele respondeu:

— Tá bem… agora ele vive num sítio.

Então completei:

— Quando vê-lo, diga que mandei um abraço.

 

Moral da história: Quando você conquista aquilo que você considerava impossível de ser realizado, isso tem que ser muito comemorado.

* Esta é uma história de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são fictícios. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque quem conta um conto sempre aumenta um ponto. A ilustração foi gerada por inteligência artificial.


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