Depois de horas, quase no início da madrugada, quando o
término do registro do flagrante estava próximo, eis que acontece o inesperado
O local onde hoje fica
a Capitania dos Portos do Estado de São Paulo, entre os Armazéns 27 e 29, no
Bairro Macuco, conhecido como Cais da Mortona, é um local histórico e popular
no Porto de Santos.
O nome
"Mortona" vem de um antigo estaleiro e oficinas de blocos de pedra
que existiam na área, pertencentes à Companhia Docas de Santos - CDS.
Antigamente, ali
funcionava o Departamento Marítimo da Companhia, responsável pela manutenção
das embarcações.
Na década de 1990,
os prédios administrativos foram cedidos à Guarda Portuária - GPort, passando a
abrigar sua sede administrativa e operacional. A partir daí, além de papelada,
café frio e rádio chiando, passaram a morar ali muitas histórias dignas de
roteiro de cinema.
Para combater as
"arriadas" - modus operandi onde as mercadorias furtadas a bordo dos
navios são descidas por cordas para pequenas embarcações - a chefia da Guarda
resolveu implantar o patrulhamento marítimo.
Como o Departamento
Marítimo já vinha sendo sucateado, com embarcações encostadas, paradas ou
esquecidas em algum canto daquele cais, surgiu a brilhante ideia: “vamos pegar
uma dessas”. Afinal, se flutuava, estava valendo.
O senhor Armando,
chefe do departamento, solicitou ao Departamento de Engenharia um profissional
habilitado para acompanhar a reforma e adaptação da lancha Diana X. Naquela
época, engenheiro não faltava: em cada sala havia um, altamente capacitado, só
aguardando uma missão — qualquer missão.
O escolhido foi o
engenheiro Chico, incumbido de transformar a lancha que, antes de ser docada, transportava
trabalhadores do porto até a Usina Hidrelétrica de Itatinga, em Bertioga. Era
praticamente um ônibus aquático.
Foram selecionados
dois guardas e um inspetor por turma. Fizemos o curso de arrais amador —
exigência da época — e encaramos provas teóricas e práticas na Capitania dos
Portos. Saímos todos devidamente habilitados, confiantes e cheios de esperança
para operar a embarcação.
Terminamos o curso e
nada da nossa lancha ficar pronta. Foram oito meses de espera até enfim chegar
o dia dela ir pra água. O problema é que a lancha não acompanhou nosso
entusiasmo e a nossa empolgação durou pouco.
Na reforma, a lancha
foi encolhida sem dó nem piedade. As longarinas foram cortadas, a casaria ficou
menor e os dois motores Mercedes-Benz foram realocados para o meio da
embarcação, alterando completamente o eixo de equilíbrio. O resultado foi uma
lancha com personalidade própria: quando acelerava, em vez de empinar, ela
embicava, como quem dissesse “calma que eu vou, mas do meu jeito”.
Antes da reforma o
trajeto Santos–Bertioga era feito em cerca de 40 minutos. Depois, o mesmo tempo
era gasto apenas para ir da base de atracação, no Canal da Mortona, até o cais
do Saboó.
Mas como a
implantação do patrulhamento marítimo já tinha sido divulgado na imprensa, então
era aquilo ou nada. Fomos combater o crime pelo lado de mar com uma embarcação
lenta, o mesmo uniforme de sempre, um rádio HT, um revólver calibre 38 com
cinco balas no tambor, um cinturão de couro que nos faria afundar caso
caíssemos na água, e nenhum colete à prova de balas. Era literalmente no peito,
na raça — e na fé.
Com essa estrutura,
o efeito era muito mais moral do que operacional. Quando chegávamos ao local da
ocorrência, os malacos já tinham empreendido fuga. Nosso sucesso dependia
exclusivamente de estar no lugar certo, na hora certa — o que nunca acontecia.
Numa sexta-feira, no
turno das 18 às 24 horas, patrulhando rumo à entrada do Canal do Estuário, na
Ponta da Praia, ao fazer a curva do Ferry Boat, junto ao cais do Armazém 35, a
equipe finalmente deu sorte.
Havia uma arriada em
andamento em um navio atracado na Libra Terminal 37. Caixas desciam por cordas
até uma embarcação posicionada junto ao costado do navio.
Ao ver a cena, o
inspetor Paulo Sérgio, no comando da lancha, gritou com entusiasmo digno de
filme de ação:
— Félix, toda força
no motor! Vamos finalmente realizar uma apreensão!
Ao perceber a
aproximação da Guarda, o condutor da embarcação suspeita iniciou a fuga,
atravessando o canal em direção à comunidade do Jardim Conceiçãozinha.
Ciente das limitações
da nossa lancha, Félix pensou rápido: mudou a rota, traçou uma linha
transversal e seguiu direto em direção àquela comunidade, tentando chegar antes
do meliante.
Durante a travessia
do canal, o fugitivo foi jogando algumas caixas ao mar para ganhar velocidade,
e começou a remar cada vez mais rápido.
Depois de alguns
minutos de tensão — e muita paciência — a guarnição conseguiu realizar a
abordagem a poucos metros da margem. Então, o guarda Santos pulou naquele barco
e conseguiu realizar a detenção. A embarcação, os remos e as caixas — contendo
máquinas de escrever da marca Olivetti — foram apreendidos. Algumas caixas
lançadas ao mar foram recuperadas; outras, devido ao peso, depois de algum
tempo, foram afundando.
O detido e o produto
do furto foram encaminhados para a sede da Polícia Federal, na Praça da
República, no centro de Santos.
Já na delegacia, o
delegado de plantão perguntou:
— Quem vai
apresentar a ocorrência?
O inspetor Paulo
Sérgio respondeu na lata:
— Quem tem que
aparecer são os meus guardas.
E designou Santos
como condutor — afinal, foi ele quem pulou na embarcação — e Félix como
testemunha. Paulo Sérgio, por sua vez, aplicou a clássica saída à francesa e
desapareceu discretamente.
Registrar flagrante
naquela época era uma verdadeira maratona burocrática. Registro da ocorrência,
termos de declaração do preso, do condutor, da testemunha, apreensão da
embarcação, do material… tudo datilografado em máquinas de escrever que já
tinham visto dias melhores.
Depois de horas,
quase no início da madrugada, quando o término do registro do flagrante estava
próximo, eis que acontece o inesperado.
Paulo Sérgio
reaparece triunfante, com duas pizzas — uma de muçarela e outra de calabresa —
em uma mão, e um refrigerante de dois litros na outra, anunciando em alto e bom
som:
— Doutor, eu trouxe
uma pizza pra comemorar!
E, como se não
bastasse, soltou sua risada característica, em tom elevado:
— Ah, ah, rá, rá,
rá, rá, RÁ!
O delegado olhou
para os guardas, para o escrivão, pensou por alguns segundos… e caiu na risada
junto com todo mundo.
A gargalhada de
Paulo Sérgio era única: alta, alegre, espalhafatosa, acompanhada de gestos
largos e o balanço dos cabelos compridos. Ele era franzino e tinha um perfil
que fazia ele se parecer como um sósia do cantos Roberto Carlos — comparação
que ele adorava ouvir.
Depois de todos
comerem a pizza, Paulo Sérgio explicou que aquela havia sido a primeira
apreensão do patrulhamento marítimo da Guarda Portuária. E essa conquista, tão
improvável, merecia comemoração.
Como eu tinha
trabalhado das 12h às 18 h e não dobrei a minha jornada, não participei dessa
ocorrência. No dia seguinte, quando cheguei ao meu posto no Patrulhamento
Marítimo, meus colegas me contaram que eu havia perdido a lendária “Noite da
Pizza na Delegacia”, com direito a perseguição lenta, risada alta e pizza fria.
O fato curioso é que
anos depois, em 2005, já ocupando o cargo de Inspetor II, contei essa história
a um grupo de guardas portuários recém-admitidos. Ao imitar a risada do Paulo
Sérgio, um jovem chamado Yago levantou a mão e disse:
— Inspetor
Carvalhal, esse era o meu pai.
Realmente àquela
risada era muito característica, quem a ouvisse e conhecesse o autor saberia
identificar de quem era, e eu a imitava como ninguém na Guarda.
Em seguida perguntei
ao Yago:
— Como vai seu pai?
Por onde ele anda?
Ele respondeu:
— Tá bem… agora ele
vive num sítio.
Então completei:
— Quando vê-lo, diga
que mandei um abraço.
Moral da história:
Quando você conquista aquilo que você considerava impossível de ser realizado,
isso tem que ser muito comemorado.
* Esta é uma
história de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são
fictícios. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque quem conta um
conto sempre aumenta um ponto. A ilustração foi gerada por inteligência artificial.
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