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segunda-feira, 11 de maio de 2026

REMESSAS DE COCAÍNA APREENDIDAS NO PORTO DE SANTOS DIRECIONADA A PORTOS ITALIANOS


A Itália ocupa o sexto lugar em número de operações e o sétimo em quantidade apreendida com remessas destinadas principalmente ao Porto de Gioia Tauro

Localizado no estado de São Paulo, no sudeste do Brasil, o Porto de Santos é o maior porto da América do Sul. Abrange mais de 9 quilômetros quadrados distribuídos ao longo de 16 quilômetros de cais em ambas as margens de um canal navegável que separa as cidades de Santos e Guarujá. Portanto, embora seja conhecido como Porto de Santos, suas instalações multiuso se estendem pelos municípios de Santos, Guarujá e Cubatão, incluindo 55 terminais entre áreas primárias e secundárias.

Em 2024, o porto movimentou 179,8 milhões de toneladas de carga, das quais 59,9 milhões de toneladas foram conteinerizadas, equivalente a 5,5 milhões de TEUs – unidades equivalentes a vinte pés , uma medida padrão de volume de contêineres. Com um intenso fluxo diário de mais de 7.000 caminhões, quase 9.000 contêineres e 15 navios, o Porto de Santos foi responsável por 29% dos US$ 600 bilhões do comércio exterior brasileiro, conectando a economia nacional a mais de 200 países e 600 portos (Autoridade Portuária de Santos, 2025a; 2025b). Nesse sentido, é um dos principais portos de entrada e Rota de saída da América do Sul, tanto para mercadorias legais quanto para tráfico ilícito.

NAo londo da última década, o Brasil consolidou sua posição como o principal país de partida da cocaína proveniente da região andina e destinada à Europa (UNODC, 2022). A droga é importada por terra ou ar diretamente de países produtores, como Bolívia, Peru e Colômbia, ou indiretamente pelo Paraguai, que serve como um centro de trânsito. Um corredor particularmente estratégico, conhecido como a chamada “rota do caipira”, consiste nas fronteiras do Brasil com a Bolívia e o Paraguai, com rodovias que levam diretamente ao Porto de Santos (Abreu, 2018). De lá, a cocaína de alta pureza na forma de cloridrato é enviada por via marítima para destinos em todo o mundo.

As apreensões de cocaína no Porto de Santos aumentaram significativamente em 2016, quando 10.622 kg foram detectados – quase 1.000% a mais do que no ano anterior. Uma das explicações mais frequentemente citadas é que, naquele ano todos os contêineres com destino a portos europeus começaram a ser escaneados. Esse volume continuou a crescer até atingir o pico em 2019, quando as apreensões totalizaram 27.053 kg, antes de começar a declinar a partir de 2023.

Apreensões de cocaína no porto de Santos

Segundo dados da Alfândega de Santos, entre o início de 2016 e o ​​final de 2025, 345 operações resultaram em apreensões. Em média, foram realizadas 35 operações por ano, com 417 kg apreendidos por operação. As remessas tinham como destino 68 portos em 50 países distribuídos por quatro continentes. No geral, 86% desses países estavam na Europa, seguidos pela África (16%), Ásia (8%) e, nos casos mais recentemente, Oceania (2%), com dados que incluem tanto portos de transbordo quanto portos de destino final. Os cinco principais países, tanto em número de operações quanto em quantidades apreendidas, foram Bélgica, Espanha, Holanda, Alemanha e França. Os três principais destacam-se claramente: 110 operações envolveram remessas para a Bélgica, 74 para a Espanha e 50 para os Países Baixos, totalizando 57.766 kg, 32.559 kg e 20.048 kg de cocaína, respectivamente. O porto belga de Antuérpia, os portos espanhóis de Algeciras e Valência e o porto holandês de Roterdã foram os mais frequentemente detectados.

A Itália ocupa o sexto lugar em número de operações e o sétimo em quantidade apreendida. Foram registadas 18 apreensões, totalizando 5.428 kg de cocaína, com remessas destinadas principalmente ao porto de Gioia Tauro (10), bem como a Vado Ligure (2), Génova (1), Livorno (1) e outros portos não identificados (4). Estes casos ilustram uma variedade de modos operacionais, incluindo tanto a infiltração em rotas comerciais legítimas como a criação de rotas legais dedicadas ao tráfico de cocaína. A maioria das cargas foi colocada em contêineres, com a cocaína escondida dentro ou fora da carga; no entanto, também houve casos de mergulhadores inserindo-a em compartimentos submersos de cascos de navios.

Remessas de cocaína apreendidas no Porto de Santos direcionadas a portos italianos

Entretanto, a importância da ligação ítalo-brasileira não se limita a remessas enviadas diretamente entre os dois países, já que centros de trânsito também são utilizados. Por exemplo, em setembro de 2018, uma apreensão de 1.195 kg foi realizada no Porto de Santos. As drogas estavam escondidas dentro de rolos de tratores com destino ao Porto de Abidjan, na Costa do Marfim. As investigações culminaram na operação internacional conjunta - Operação Spaghetti Connection -, lançada em Abidjan, em junho de 2019. Seis italianos foram presos: eles administravam uma empresa de fachada na Costa do Marfim para importar tratores contendo cocaína e, em pelo menos duas ocasiões, receberam com sucesso as cargas e as encaminharam para a Itália. Entre eles, havia membros da 'Ndrangheta.

A presença da máfia calabresa no Brasil já havia sido identificada anteriormente (Patriarca e Adorno, 2025). Em março de 2014, após um ano de investigação, iniciada quando as autoridades italianas informaram seus conselheiros brasileiros sobre o tráfico de drogas ligado à 'Ndrangheta no Porto de Santos, a Polícia Federal (PF) lançou a Operação Monte Pollino. Evidências desse braço sul-americano da máfia surgiram como parte da Operação Bongustaio, conduzida na Itália desde 2010, deixando às autoridades brasileiras a tarefa de identificar os responsáveis ​​pelas exportações e desmantelar o esquema no país. A PF determinou que a 'Ndrangheta financiou a logística, coordenada por um cidadão chileno considerado o "homem de confiança" da 'Ndrangheta no Brasil (Jozino, 2022).

Ele morava em uma casa de luxo em Praia Grande, cidade limítrofe a Santos. No contexto que emergiu da Operação Monte Pollino, a 'Ndrangheta operava em grande parte independentemente do Primeiro Comando da Capital (PCC) – a maior organização criminosa do Brasil, comumente chamada de fazção, fundada em São Paulo há mais de 30 anos e considerada a autoridade dominante no estado. Foi no início da década de 2010 que traficantes do PCC entraram no mercado atacadista de cocaína, enviando seus primeiros carregamentos pelo Porto de Santos. Por volta de 2014, a organização estabeleceu um departamento interno para gerenciar esses carregamentos.

Consolidando-se como uma plataforma capaz de conectar vendedores e compradores e fornecer logística de transporte (Feltran, 2025). Consequentemente, um número crescente de narcotraficantes operando pelo Porto de Santos começou a envolver membros do PCC ou da organização como um todo, incluindo aqueles ligados à 'Ndrangheta – fortalecendo assim a conexão ítalo-brasileira.

Praticamente ao mesmo tempo da Operação Monte Pollino, carregamentos de cocaína já estavam sendo enviados do PCC para a 'Ndrangheta pelo Porto de Santos, como revelado na Operação Oversea. Investigações conduzidas na Itália também identificaram cada vez mais conexões entre membros da 'Ndrangheta e traficantes ligados ao PCC, como em 2016, quando Domenico Pelle, da 'ndrina Pelle-Vottari, manteve contato com um fornecedor brasileiro conhecido como Fuminho, braço direito do líder da facção no Brasil (Anesi et al., 2018). Para a PF, Fuminho atuou como intermediário na ligação ítalo-brasileira até sua prisão em 2020 em Maputo, Moçambique, após 21 anos foragido (Abreu, 2020).

No entanto, ele não era o único intermediário, e a conexão era mantida por meio de vários brasileiros e italianos. De fato, enquanto a Operação Spaghetti Connection era lançada na Costa do Marfim, uma investigação sobre outro esquema da 'Ndrangheta estava em andamento no Brasil. Em julho de 2019, Nicola Assisi e seu filho Patrick foram presos durante a Operação Barão Invisível. Eles foram encontrados na cobertura de um prédio de luxo em Praia Grande, que havia sido convertido em bunker. Segundo a polícia italiana, "pai e filho trabalhavam juntos com uma das maiores facções criminosas brasileiras", uma referência implícita ao PCC (G1, 2019).

Outras figuras também deixaram sua marca nessa história. Um de seus capítulos mais recentes foi escrito em João Pessoa, no nordeste do Brasil, onde Rocco Morabito foi identificado em 2021. Preso no Uruguai em 2017, ele fugiu dois anos depois, tornando-se um dos membros mais procurados da 'Ndrangheta.

Como se descobriu, Morabito estava na companhia de Vincenzo Pasquino, também foragido. Pasquino havia chegado ao Brasil no mesmo ano da prisão de Morabito no Uruguai e trabalhava em estreita colaboração com a família Assisi, assumindo o papel de principal intermediário após a prisão do pai e do filho. Segundo a PF, todos tinham ligações com o PCC (Jozino, 2021). A diferença crucial é que, uma vez extraditado para a Itália em 2024, Pasquino decidiu cooperar com a justiça. Após décadas de vida mafiosa, após sua filiação à 'Ndrangheta Volpiano, em 2011, ele se tornou um pentito, quebrando o código de silêncio pela primeira vez e revelando detalhes sobre as atividades da 'Ndrangheta em Gioia Tauro e sua conexão com o PCC em Santos, bem como outras operações criminosas na Itália e no Brasil (Godoy, 2024).

Por esse motivo, as autoridades italianas e brasileiras também chegaram a um acordo. Decisão sem precedentes de estabelecer equipes conjuntas permanentes de investigação com base nas informações fornecidas por Pasquino.

Este último capítulo, embora não seja definitivo — visto que, até onde sabemos, Pasquino já foi substituído por outro intermediário —, representa um dos mais significativos até o momento.

Acredita-se que seu depoimento possa desencadear processos de desmantelamento dos esquemas da 'Ndrangheta, semelhantes aos produzidos na Cosa Nostra pelas confissões de Tommaso Buscetta ao juiz Giovanni Falcone na década de 1980. Com base no que foi revelado por Don Masino, como Buscetta era conhecido, após sua prisão no Brasil em 1983, foi possível contar a história da máfia siciliana no país (Demori, 2016). A história da 'Ndrangheta, no entanto, ainda está por ser escrita. O que já está claro é que o PCC fará parte disso, e que dois nomes aparecerão em suas linhas de abertura: Gioia Tauro e Santos.

Dada a influência da máfia calabresa sobre o primeiro e da facção paulistana sobre o segundo, a conexão ítalo-brasileira desembarcará nesses portos, mesmo com a integração de rotas cada vez mais diversificadas em seus itinerários.

Autor/Fonte: Gabriel Patriarca - Diario di Bordo - Pág 78



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