A Itália ocupa o sexto lugar em número de operações e o
sétimo em quantidade apreendida com remessas destinadas principalmente ao Porto
de Gioia Tauro
Localizado no estado
de São Paulo, no sudeste do Brasil, o Porto de Santos é o maior porto da
América do Sul. Abrange mais de 9 quilômetros quadrados distribuídos ao longo
de 16 quilômetros de cais em ambas as margens de um canal navegável que separa
as cidades de Santos e Guarujá. Portanto, embora seja conhecido como Porto de
Santos, suas instalações multiuso se estendem pelos municípios de Santos,
Guarujá e Cubatão, incluindo 55 terminais entre áreas primárias e secundárias.
Em 2024, o porto
movimentou 179,8 milhões de toneladas de carga, das quais 59,9 milhões de toneladas
foram conteinerizadas, equivalente a 5,5 milhões de TEUs – unidades
equivalentes a vinte pés , uma medida padrão de volume de contêineres. Com um
intenso fluxo diário de mais de 7.000 caminhões, quase 9.000 contêineres e 15
navios, o Porto de Santos foi responsável por 29% dos US$ 600 bilhões do
comércio exterior brasileiro, conectando a economia nacional a mais de 200
países e 600 portos (Autoridade Portuária de Santos, 2025a; 2025b). Nesse
sentido, é um dos principais portos de entrada e Rota de saída da América do
Sul, tanto para mercadorias legais quanto para tráfico ilícito.
NAo londo da última década, o
Brasil consolidou sua posição como o principal país de partida da cocaína
proveniente da região andina e destinada à Europa (UNODC, 2022). A droga é
importada por terra ou ar diretamente de países produtores, como Bolívia, Peru
e Colômbia, ou indiretamente pelo Paraguai, que serve como um centro de
trânsito. Um corredor particularmente estratégico, conhecido como a chamada
“rota do caipira”, consiste nas fronteiras do Brasil com a Bolívia e o
Paraguai, com rodovias que levam diretamente ao Porto de Santos (Abreu, 2018).
De lá, a cocaína de alta pureza na forma de cloridrato é enviada por via
marítima para destinos em todo o mundo.
As apreensões de
cocaína no Porto de Santos aumentaram significativamente em 2016, quando 10.622
kg foram detectados – quase 1.000% a mais do que no ano anterior. Uma das
explicações mais frequentemente citadas é que, naquele ano todos os contêineres
com destino a portos europeus começaram a ser escaneados. Esse volume continuou
a crescer até atingir o pico em 2019, quando as apreensões totalizaram 27.053
kg, antes de começar a declinar a partir de 2023.
Apreensões de cocaína no porto de Santos
Segundo dados da
Alfândega de Santos, entre o início de 2016 e o final de 2025, 345 operações resultaram em apreensões.
Em média, foram realizadas 35 operações por ano, com 417 kg apreendidos por
operação. As remessas tinham como destino 68 portos em 50 países distribuídos
por quatro continentes. No geral, 86% desses países estavam na Europa, seguidos
pela África (16%), Ásia (8%) e, nos casos mais recentemente, Oceania (2%), com
dados que incluem tanto portos de transbordo quanto portos de destino final. Os
cinco principais países, tanto em número de operações quanto em quantidades
apreendidas, foram Bélgica, Espanha, Holanda, Alemanha e França. Os três
principais destacam-se claramente: 110 operações envolveram remessas para a
Bélgica, 74 para a Espanha e 50 para os Países Baixos, totalizando 57.766 kg,
32.559 kg e 20.048 kg de cocaína, respectivamente. O porto belga de Antuérpia,
os portos espanhóis de Algeciras e Valência e o porto holandês de Roterdã foram
os mais frequentemente detectados.
A Itália ocupa o
sexto lugar em número de operações e o sétimo em quantidade apreendida. Foram
registadas 18 apreensões, totalizando 5.428 kg de cocaína, com remessas destinadas
principalmente ao porto de Gioia Tauro (10), bem como a Vado Ligure (2), Génova
(1), Livorno (1) e outros portos não identificados (4). Estes casos ilustram
uma variedade de modos operacionais, incluindo tanto a infiltração em rotas
comerciais legítimas como a criação de rotas legais dedicadas ao tráfico de
cocaína. A maioria das cargas foi colocada em contêineres, com a cocaína
escondida dentro ou fora da carga; no entanto, também houve casos de
mergulhadores inserindo-a em compartimentos submersos de cascos de navios.
Remessas de cocaína apreendidas no Porto de Santos direcionadas a portos
italianos
Entretanto, a
importância da ligação ítalo-brasileira não se limita a remessas enviadas
diretamente entre os dois países, já que centros de trânsito também são
utilizados. Por exemplo, em setembro de 2018, uma apreensão de 1.195 kg foi realizada
no Porto de Santos. As drogas estavam escondidas dentro de rolos de tratores
com destino ao Porto de Abidjan, na Costa do Marfim. As investigações culminaram
na operação internacional conjunta - Operação Spaghetti Connection -, lançada em
Abidjan, em junho de 2019. Seis italianos foram presos: eles administravam uma
empresa de fachada na Costa do Marfim para importar tratores contendo cocaína e,
em pelo menos duas ocasiões, receberam com sucesso as cargas e as encaminharam
para a Itália. Entre eles, havia membros da 'Ndrangheta.
A presença da máfia calabresa
no Brasil já havia sido identificada anteriormente (Patriarca e Adorno, 2025).
Em março de 2014, após um ano de investigação, iniciada quando as autoridades
italianas informaram seus conselheiros brasileiros sobre o tráfico de drogas ligado
à 'Ndrangheta no Porto de Santos, a Polícia Federal (PF) lançou a Operação
Monte Pollino. Evidências desse braço sul-americano da máfia surgiram como
parte da Operação Bongustaio, conduzida na Itália desde 2010, deixando às autoridades
brasileiras a tarefa de identificar os responsáveis pelas exportações e desmantelar o
esquema no país. A PF determinou que a 'Ndrangheta financiou a logística,
coordenada por um cidadão chileno considerado o "homem de confiança"
da 'Ndrangheta no Brasil (Jozino, 2022).
Ele morava em uma
casa de luxo em Praia Grande, cidade limítrofe a Santos. No contexto que
emergiu da Operação Monte Pollino, a 'Ndrangheta operava em grande parte
independentemente do Primeiro Comando da Capital (PCC) – a maior organização
criminosa do Brasil, comumente chamada de fazção, fundada em São Paulo há mais
de 30 anos e considerada a autoridade dominante no estado. Foi no início da
década de 2010 que traficantes do PCC entraram no mercado atacadista de
cocaína, enviando seus primeiros carregamentos pelo Porto de Santos. Por volta
de 2014, a organização estabeleceu um departamento interno para gerenciar esses
carregamentos.
Consolidando-se como
uma plataforma capaz de conectar vendedores e compradores e fornecer logística
de transporte (Feltran, 2025). Consequentemente, um número crescente de
narcotraficantes operando pelo Porto de Santos começou a envolver membros do
PCC ou da organização como um todo, incluindo aqueles ligados à 'Ndrangheta –
fortalecendo assim a conexão ítalo-brasileira.
Praticamente ao
mesmo tempo da Operação Monte Pollino, carregamentos de cocaína já estavam
sendo enviados do PCC para a 'Ndrangheta pelo Porto de Santos, como revelado na
Operação Oversea. Investigações conduzidas na Itália também identificaram cada
vez mais conexões entre membros da 'Ndrangheta e traficantes ligados ao PCC,
como em 2016, quando Domenico Pelle, da 'ndrina Pelle-Vottari, manteve contato
com um fornecedor brasileiro conhecido como Fuminho, braço direito do líder da
facção no Brasil (Anesi et al., 2018). Para a PF, Fuminho atuou como
intermediário na ligação ítalo-brasileira até sua prisão em 2020 em Maputo,
Moçambique, após 21 anos foragido (Abreu, 2020).
No entanto, ele não
era o único intermediário, e a conexão era mantida por meio de vários brasileiros
e italianos. De fato, enquanto a Operação Spaghetti Connection era lançada na Costa
do Marfim, uma investigação sobre outro esquema da 'Ndrangheta estava em
andamento no Brasil. Em julho de 2019, Nicola Assisi e seu filho Patrick foram
presos durante a Operação Barão Invisível. Eles foram encontrados na cobertura
de um prédio de luxo em Praia Grande, que havia sido convertido em bunker.
Segundo a polícia italiana, "pai e filho trabalhavam juntos com uma das
maiores facções criminosas brasileiras", uma referência implícita ao PCC
(G1, 2019).
Outras figuras
também deixaram sua marca nessa história. Um de seus capítulos mais recentes
foi escrito em João Pessoa, no nordeste do Brasil, onde Rocco Morabito foi
identificado em 2021. Preso no Uruguai em 2017, ele fugiu dois anos depois,
tornando-se um dos membros mais procurados da 'Ndrangheta.
Como se descobriu,
Morabito estava na companhia de Vincenzo Pasquino, também foragido. Pasquino
havia chegado ao Brasil no mesmo ano da prisão de Morabito no Uruguai e
trabalhava em estreita colaboração com a família Assisi, assumindo o papel de principal
intermediário após a prisão do pai e do filho. Segundo a PF, todos tinham
ligações com o PCC (Jozino, 2021). A diferença crucial é que, uma vez
extraditado para a Itália em 2024, Pasquino decidiu cooperar com a justiça.
Após décadas de vida mafiosa, após sua filiação à 'Ndrangheta Volpiano, em
2011, ele se tornou um pentito, quebrando o código de silêncio pela primeira
vez e revelando detalhes sobre as atividades da 'Ndrangheta em Gioia Tauro e
sua conexão com o PCC em Santos, bem como outras operações criminosas na Itália
e no Brasil (Godoy, 2024).
Por esse motivo, as
autoridades italianas e brasileiras também chegaram a um acordo. Decisão sem
precedentes de estabelecer equipes conjuntas permanentes de investigação com
base nas informações fornecidas por Pasquino.
Este último
capítulo, embora não seja definitivo — visto que, até onde sabemos, Pasquino já
foi substituído por outro intermediário —, representa um dos mais
significativos até o momento.
Acredita-se que seu
depoimento possa desencadear processos de desmantelamento dos esquemas da
'Ndrangheta, semelhantes aos produzidos na Cosa Nostra pelas confissões de
Tommaso Buscetta ao juiz Giovanni Falcone na década de 1980. Com base no que
foi revelado por Don Masino, como Buscetta era conhecido, após sua prisão no
Brasil em 1983, foi possível contar a história da máfia siciliana no país
(Demori, 2016). A história da 'Ndrangheta, no entanto, ainda está por ser
escrita. O que já está claro é que o PCC fará parte disso, e que dois nomes aparecerão
em suas linhas de abertura: Gioia Tauro e Santos.
Dada a influência da máfia calabresa sobre o primeiro e da facção paulistana sobre o segundo, a conexão ítalo-brasileira desembarcará nesses portos, mesmo com a integração de rotas cada vez mais diversificadas em seus itinerários.
Autor/Fonte: Gabriel Patriarca - Diario di Bordo - Pág 78
* Esclarecemos que a a publicação é de inteira responsabilidade do autor e do veículo que a divulgou. A nossa missão ao republicar é manter informado àqueles que nos acompanham, de todos os fatos, que de alguma forma, estejam relacionados com a Segurança Portuária em todo o seu contexto. A matéria veiculada apresenta cunho jornalístico e informativo, inexistindo qualquer crítica política ou juízo de valor. O espaço está aberto para a manifestação das pessoas e empresas citadas nesta reportagem.











Nenhum comentário:
Postar um comentário
Os comentários publicados não representam a opinião do Portal Segurança Portuária Em Foco. A responsabilidade é do autor da mensagem. Não serão aceitos comentários anônimos. Caso não tenha conta no Google, entre como anônimo mas se identique no final do seu comentário e insira o seu e-mail.