Ele foi homenageado pelo sindicato do trabalhador resgatado. Antes da Constituição de 1988, os guardas portuários não tinham direito à
sindicalização
No Porto de Santos
existem histórias, principalmente na Guarda Portuária, tão improváveis que, se
não estivessem nos jornais, seriam facilmente classificadas como “conversa de
cais”.
Nesta história, o
ocorrido não tem como ser contestado, pois o fato foi divulgado pela imprensa. Já
os seus desdobramentos permaneceram apenas na memória de quem presenciou os
acontecimentos, sendo transmitidos oralmente às gerações futuras.
Era sexta-feira, 19
de março de 1976. O cais estava tão tranquilo que dava até para ouvir o barulho
da água batendo nas defensas. Nenhum navio atracado, tudo dentro da mais
perfeita monotonia portuária… até que a lancha Caneu resolveu desafiar as leis
da física e se chocar violentamente com uma embarcação tipo chata, carregada de
areia que estava operando junto ao cais do Armazém 39, e com o impacto, virou e
afundou rapidamente, espalhando tripulantes na água.
O guarda portuário
Omar estava de serviço no oitão do Armazém 39, localizado na ponta do cais, acomodado
— se é que essa palavra cabe — em sua “luxuosa” guarita de madeira, coisa de 1
m², sem porta, sem cadeira, sem água potável e sem dignidade. Hoje, essas condições
seriam impensáveis à luz da legislação trabalhista.
Daquele posto
privilegiado, Omar viu sete trabalhadores sendo resgatados. Tudo parecia sob
controle, até que percebeu que um deles, depois de se debater bastante na água,
parou completamente de se mexer.
De imediato, ele
arrancou o uniforme, os coturnos e o cassetete da cintura, jogou tudo no chão
e, apenas de cueca, pulou na água. Alcançou o homem desacordado e o trouxe até
o cais.
O trabalhador estava
inconsciente e com o corpo já arroxeado pela falta de oxigênio. Sem perder
tempo, Omar iniciou os procedimentos de primeiros socorros, aplicando
respiração boca a boca, eliminando a água dos pulmões e fazendo com que ele
voltasse a respirar, como se estivesse devolvendo-o ao mundo dos vivos.
Todos os
trabalhadores envolvidos no acidente foram socorridos e encaminhados ao
pronto-socorro do cais.
Quatro dias depois,
o acidente foi divulgado no jornal A Tribuna, informando que a chata sofreu
apenas algumas ranhuras e que a lancha Caneu, resgatada do fundo do Canal do
Estuário, ficou com o casco parcialmente danificado.
A matéria também
relatava que a notícia do acidente correu rapidamente pelo cais, e que os
doqueiros que presenciaram o resgate comentavam a atitude heroica de Omar, destacando
que ele havia salvado a vida de um dos trabalhadores.
Na CODESP da época,
em pleno período da ditadura militar, existia um departamento — AGESI (Agência e Serviço de Informação), comandada
pelo coronel Carbogine — responsável por monitorar a vida de todos os trabalhadores portuários,
principalmente a de seus próprios empregados, funcionando como braço do SNI (Serviço
Nacional de Informações), dentro do porto.
A empresa assinava
todos os jornais da cidade e do estado, e um agente lia cada exemplar, página
por página, minuciosamente. Quando o nome de Omar apareceu, a matéria foi
destacada, dobrada, grifada e enviada diretamente para o Sr. Laírton, na chefia
da Guarda — um sujeito extremamente conservador.
Ele se dizia
defensor da “Tradicional Família Mineira” - conceito cultural e social da época
que representava certos valores e tradições do conservadorismo.
Assim que leu a notícia,
ele mandou chamar o “herói” à sua sala. Ao receber a convocação, Omar comentou
com os colegas, que logo disseram:
— Vai ganhar um
elogio, quem sabe uma medalha!
As palavras dos
amigos o deixaram entusiasmado, e ele se dirigiu ao prédio da sede da Guarda,
cheio de expectativas. Ao chegar, tomou um longo chá de cadeira. Quando
finalmente entrou na sala do chefe, percebeu que o semblante dele não era nada
bom. O homem parecia cuspir fogo. A conversa foi breve, dura e começou com uma
pergunta que ficou marcada pelo tom moralista e autoritário
— Foi você que, sem pedir autorização, sem preencher formulário e, pior
ainda, sem consultar a chefia, abandonou o seu posto, jogou o uniforme no chão,
largou o cassetete e pulou na água só de cueca e, ainda por cima, colocou a sua
boca na boca de outro homem?
Antes que Omar pudesse
explicar que havia salvado uma vida, veio o golpe final:
— Deve ter sido um “beijinho doce”.
Atônito, Omar ficou
sem palavras. Tremia como vara verde, sem acreditar no que estava acontecendo.
Sem ouvir sequer uma
palavra de Omar, Laírton deu o veredito:
— Três dias de suspensão!
Quando retornou ao
cais e contou aos seus colegas o que tinha acontecido, todos ficaram
incrédulos. Até que um deles logo falou:
— Então você é o “Beijinho Doce”!
E assim, num passe
de malabarismo administrativa, um ato heroico virou piada interna. Omar não
ganhou elogio, não ganhou medalha, não ganhou reconhecimento. Ganhou um
apelido.
Daquele dia até a
aposentadoria, ninguém mais o chamou de Omar. Para todos, ele passou a ser o
lendário “Beijinho Doce” — um título que grudou mais forte que cheiro de peixe
em mãos de peixeiro.
O guarda portuário
que salvou o trabalhador foi homenageado pela entidade sindical que
representava a categoria do trabalhador resgatado — reforçando que, até a
promulgação da Constituição de 1988, os guardas portuários não tinham direito à
sindicalização. Ele não teve ninguém que o defendesse ou o elogiasse sob a
chancela da corporação.
O nome verdadeiro do
personagem desta história é Osmar Félix. Ele faleceu em agosto de 2025, sem que
seu ato de heroísmo fosse oficialmente reconhecido pela Codesp – atual
Autoridade Portuária de Santos (APS), à qual dedicou anos de serviço. E o pior:
esse não foi um caso isolado. Existem outros episódios semelhantes, em que atitudes
proativas e humanas foram ignoradas ou até mesmo punidas.
Moral da história: “Em tempos de autoritarismo, até o heroísmo pode ser punido. O tempo
passa, mas a memória e a dignidade dos que salvaram vidas não deveriam afundar
junto com o silêncio institucional”.
* Esta é uma
história de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são
fictícios. Desta vez, o nome real do personagem foi divulgado como forma de
reconhecimento. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque quem
conta um conto sempre aumenta um ponto. A ilustração foi gerada por
inteligência artificial.
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