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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

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CASOS DO CAIS: A HISTÓRIA DO HERÓI “BEIJINHO DOCE”

Ele foi homenageado pelo sindicato do trabalhador resgatado. Antes da Constituição de 1988, os guardas portuários não tinham direito à sindicalização

No Porto de Santos existem histórias, principalmente na Guarda Portuária, tão improváveis que, se não estivessem nos jornais, seriam facilmente classificadas como “conversa de cais”.

Nesta história, o ocorrido não tem como ser contestado, pois o fato foi divulgado pela imprensa. Já os seus desdobramentos permaneceram apenas na memória de quem presenciou os acontecimentos, sendo transmitidos oralmente às gerações futuras.

Era sexta-feira, 19 de março de 1976. O cais estava tão tranquilo que dava até para ouvir o barulho da água batendo nas defensas. Nenhum navio atracado, tudo dentro da mais perfeita monotonia portuária… até que a lancha Caneu resolveu desafiar as leis da física e se chocar violentamente com uma embarcação tipo chata, carregada de areia que estava operando junto ao cais do Armazém 39, e com o impacto, virou e afundou rapidamente, espalhando tripulantes na água.

O guarda portuário Omar estava de serviço no oitão do Armazém 39, localizado na ponta do cais, acomodado — se é que essa palavra cabe — em sua “luxuosa” guarita de madeira, coisa de 1 m², sem porta, sem cadeira, sem água potável e sem dignidade. Hoje, essas condições seriam impensáveis à luz da legislação trabalhista.

Daquele posto privilegiado, Omar viu sete trabalhadores sendo resgatados. Tudo parecia sob controle, até que percebeu que um deles, depois de se debater bastante na água, parou completamente de se mexer.

De imediato, ele arrancou o uniforme, os coturnos e o cassetete da cintura, jogou tudo no chão e, apenas de cueca, pulou na água. Alcançou o homem desacordado e o trouxe até o cais.

O trabalhador estava inconsciente e com o corpo já arroxeado pela falta de oxigênio. Sem perder tempo, Omar iniciou os procedimentos de primeiros socorros, aplicando respiração boca a boca, eliminando a água dos pulmões e fazendo com que ele voltasse a respirar, como se estivesse devolvendo-o ao mundo dos vivos.

Todos os trabalhadores envolvidos no acidente foram socorridos e encaminhados ao pronto-socorro do cais.

Quatro dias depois, o acidente foi divulgado no jornal A Tribuna, informando que a chata sofreu apenas algumas ranhuras e que a lancha Caneu, resgatada do fundo do Canal do Estuário, ficou com o casco parcialmente danificado.

A matéria também relatava que a notícia do acidente correu rapidamente pelo cais, e que os doqueiros que presenciaram o resgate comentavam a atitude heroica de Omar, destacando que ele havia salvado a vida de um dos trabalhadores.

Na CODESP da época, em pleno período da ditadura militar, existia um departamento AGESI (Agência e Serviço de Informação), comandada pelo coronel Carbogine responsável por monitorar a vida de todos os trabalhadores portuários, principalmente a de seus próprios empregados, funcionando como braço do SNI (Serviço Nacional de Informações), dentro do porto.

A empresa assinava todos os jornais da cidade e do estado, e um agente lia cada exemplar, página por página, minuciosamente. Quando o nome de Omar apareceu, a matéria foi destacada, dobrada, grifada e enviada diretamente para o Sr. Laírton, na chefia da Guarda — um sujeito extremamente conservador.

Ele se dizia defensor da “Tradicional Família Mineira” - conceito cultural e social da época que representava certos valores e tradições do conservadorismo.

Assim que leu a notícia, ele mandou chamar o “herói” à sua sala. Ao receber a convocação, Omar comentou com os colegas, que logo disseram:

— Vai ganhar um elogio, quem sabe uma medalha!

As palavras dos amigos o deixaram entusiasmado, e ele se dirigiu ao prédio da sede da Guarda, cheio de expectativas. Ao chegar, tomou um longo chá de cadeira. Quando finalmente entrou na sala do chefe, percebeu que o semblante dele não era nada bom. O homem parecia cuspir fogo. A conversa foi breve, dura e começou com uma pergunta que ficou marcada pelo tom moralista e autoritário

Foi você que, sem pedir autorização, sem preencher formulário e, pior ainda, sem consultar a chefia, abandonou o seu posto, jogou o uniforme no chão, largou o cassetete e pulou na água só de cueca e, ainda por cima, colocou a sua boca na boca de outro homem?

Antes que Omar pudesse explicar que havia salvado uma vida, veio o golpe final:

Deve ter sido um “beijinho doce”.

Atônito, Omar ficou sem palavras. Tremia como vara verde, sem acreditar no que estava acontecendo.

Sem ouvir sequer uma palavra de Omar, Laírton deu o veredito:

Três dias de suspensão!

Quando retornou ao cais e contou aos seus colegas o que tinha acontecido, todos ficaram incrédulos. Até que um deles logo falou:

Então você é o “Beijinho Doce”!

E assim, num passe de malabarismo administrativa, um ato heroico virou piada interna. Omar não ganhou elogio, não ganhou medalha, não ganhou reconhecimento. Ganhou um apelido.

Daquele dia até a aposentadoria, ninguém mais o chamou de Omar. Para todos, ele passou a ser o lendário “Beijinho Doce” — um título que grudou mais forte que cheiro de peixe em mãos de peixeiro.

O guarda portuário que salvou o trabalhador foi homenageado pela entidade sindical que representava a categoria do trabalhador resgatado — reforçando que, até a promulgação da Constituição de 1988, os guardas portuários não tinham direito à sindicalização. Ele não teve ninguém que o defendesse ou o elogiasse sob a chancela da corporação.

O nome verdadeiro do personagem desta história é Osmar Félix. Ele faleceu em agosto de 2025, sem que seu ato de heroísmo fosse oficialmente reconhecido pela Codesp – atual Autoridade Portuária de Santos (APS), à qual dedicou anos de serviço. E o pior: esse não foi um caso isolado. Existem outros episódios semelhantes, em que atitudes proativas e humanas foram ignoradas ou até mesmo punidas.

Moral da história: “Em tempos de autoritarismo, até o heroísmo pode ser punido. O tempo passa, mas a memória e a dignidade dos que salvaram vidas não deveriam afundar junto com o silêncio institucional”.

* Esta é uma história de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são fictícios. Desta vez, o nome real do personagem foi divulgado como forma de reconhecimento. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque quem conta um conto sempre aumenta um ponto. A ilustração foi gerada por inteligência artificial.

Leia também outros casos clicando nas imagens abaixo:



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