Organizações criminosas que lucram com o tráfico
internacional de cocaína estão mudando sua forma de operar no Brasil
Há anos, esses
grupos – o Primeiro Comando da Capital (PCC) é o maior deles – embarcam
clandestinamente pacotes da droga em contêineres que saem de portos do Brasil
em cargueiros rumo, principalmente, à Europa.
Para reduzir o risco
de terem suas cargas “contaminadas” e seus funcionários ameaçados ou comprados
pelo crime, empresas operadoras portuárias vêm reforçando medidas de segurança
e de tecnologia. Polícia Federal, Receita Federal e outros órgãos também têm intensificado
ações de controle.
Com portos mais
vigiados, as apreensões despencaram. Em 2022, a PF registrou 32.470 kg de
cocaína apreendidos em portos brasileiros. Em 2025, 15.630 kg. E em 2026, até
junho, apenas 3.197 kg – um indicativo de que há menos cocaína passando
atualmente pelos portos brasileiros em direção ao exterior.
Porto de Santos
No Porto de Santos –
o maior do Brasil -, as apreensões também estão em queda. Em 2019, a Receita
Federal apreendeu 27.053 quilos de cocaína no porto; em 2025, foram 6.428
quilos.
Mas isso está longe
de significar um enfraquecimento de grupos e facções que faturam com o comércio
internacional de cocaína. É o que afirmam fiscais federais, integrantes da
Receita e a própria Polícia Federal.
“A redução das
apreensões de cocaína em contêineres, especialmente no Porto de Santos, não
deve ser interpretada como uma diminuição do tráfico internacional de drogas,
mas, sim, como um indicativo da constante adaptação das organizações criminosas
diante do aumento da capacidade estatal de fiscalização e repressão”, disse a PF,
por meio de nota, ao Valor.
A polícia afirma que
tem havido um reforço do emprego de scanners de contêineres, maior capacitação
de equipes especializadas – como cursos de mergulho operacional e inspeção
subaquática -, utilização de embarcações e tecnologias específicas, além do
aprimoramento da análise de risco sobre empresas exportadoras, cargas e rotas
marítimas.
Terminais Privativos
Empresas privadas
que são operadoras portuárias também investem alto em segurança. Ronei
Glanzmann, CEO do MoveInfra, entidade que reúne seis das maiores empresas de
infraestrutura do Brasil, diz que elas mantêm um padrão alto de segurança para
reduzir os riscos de que suas estruturas sejam usadas pelo crime organizado.
“A Santos Brasil
[uma das empresas ligadas ao MoveInfra], por exemplo, investiu R$ 55 milhões
entre 2023 e 2025 em tecnologia e inteligência para combater esse tipo de
atuação [de narcotraficantes]. São investimentos em Tecnologias 3D, Digital
Twin (que espelha o mundo real), Internet das Coisas, Machine Learning,
realidade aumentada e uso de drones”, diz Glanzmann.
Esses movimentos
surtiram um efeito: tornou mais caro para o crime organizado no Brasil manter
os portos e os cargueiros como sua principal solução logística para o envio de
cocaína para a Europa ou outras regiões, afirma a PF.
É uma mudança que
tem levado criminosos do PCC e de outros grupos do Brasil a reverem suas
operações a fim de reduzir o risco de perderem cargas de cocaína. Quase todas
são cargas milionárias.
Somente uma das
apreensões em Santos este ano, de 461 quilos da droga em fevereiro, teria o
valor aproximado de US$ 15 milhões. A estimativa leva em conta o preço de US$
32 mil por quilo da cocaína, pagos por traficantes na França e na Itália,
segundo o World Drug Report 2026, relatório do escritório da ONU para drogas,
de junho.
Principal alvo de
autoridades federais que combatem o crime organizado no Brasil, o PCC – por
meio de seus líderes e operadores — movimenta grandes somas com o comércio de
cocaína para a Europa. Em entrevista ao Valor em junho, o porta-voz da Europol
disse que criminosos da facção desempenham hoje o papel de operadores
logísticos de quase toda a cocaína que passa pelo Brasil rumo à Europa. E que
são parceiros de todas as máfias europeias.
O Departamento de
Estado dos EUA incluiu em junho o PCC, assim como o Comando Vermelho, do Rio de
Janeiro, na lista de grupos considerados organizações terroristas estrangeiras.
O CV tem tido uma atuação menos relevante no narcotráfico internacional, dizem
autoridades, concentrando sua atuação no território brasileiro.
Com portos e
terminais mais vigiados, criminosos têm se adaptado a outras rotas. E, nesse
caso, o Equador se tornou uma opção. Assim como o Brasil, o país não produz
cocaína. Os cultivos de coca e a produção de cocaína estão concentrados em três
vizinhos: Bolívia, Peru e Colômbia.
O Equador viu em
anos recentes o aumento da presença de organizações criminosas ligadas ao
tráfico internacional de cocaína. O PCC é uma delas. De acordo com o World Drug
Report 2026, Brasil e Equador foram, entre 2020 e 2024, os principais pontos de
onde partiram navios apreendidos com cocaína na Europa, África e Ásia.
“As organizações
criminosas passaram a diversificar tanto as rotas quanto os modais empregados. Há
um crescimento da utilização da rota pelo eixo Colômbia-Equador-Europa”, disse
a PF.
Há outras mudanças.
“Paralelamente a isso, há um aumento no Brasil do emprego de embarcações de
menor porte e maior autonomia, como pesqueiros, veleiros e embarcações semissubmersíveis,
capazes de realizar travessias oceânicas ou transferências de carga em alto-mar”,
afirma a Polícia Federal.
Em novembro de 2025,
dois pesqueiros que tinham saído de Santa Catarina levando sete toneladas de
cocaína foram barrados por autoridades nas proximidades da Ilha da Madeira.
Investigações apontaram para uma rede cujos pesqueiros recebiam no mar, na
costa nordestina e também no Suriname, pacotes de cocaína – levados por
lanchas. Os pesqueiros, então, seguiam para a Europa.
No início de julho,
uma operação da Polícia Federal e da Marinha, com apoio de órgãos dos EUA,
interceptou mais um barco de pesca levando 3.748 kg de cocaína, na costa do
Pará. Os tripulantes eram brasileiros. Veleiros também passaram a ser usados
com mais frequência na travessia.
A PF diz que as
parcerias entre autoridades brasileiras e estrangeiras têm aumentado a
capacidade de interceptação da droga ao longo da rota internacional.
A mais ousada opção
de transporte marítimo usada por criminosos ligados ao crime transnacional são
os rudimentares submersíveis. Embarcações que começaram a ser fabricadas e
usadas por traficantes da Colômbia e que hoje são fabricados às escondidas no
litoral do Amapá e na Ilha do Marajó, segundo afirmou à reportagem o Sindicato
Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (ANFFA Sindical), que
reúne auditores fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
Essas embarcações
chegam a ter 15 metros de comprimento e funcionam com motor a diesel. Carregam
grandes quantidades de cocaína e levam três tripulantes, guiados por GPS, diz o
sindicato dos fiscais que acompanham de perto a movimentação de cargas nos
portos.
Todas essas
artimanhas têm uma justificativa simples: o estímulo econômico. É o que lembra
o professor de Relações Internacionais da FGV, Matias Spektor. Ele e outro
acadêmico da FGV, Oto Montagner, têm estudado as dinâmicas do crime organizado
e suas relações entre Brasil e outros países.
“Enquanto 1 kg de
cocaína, vindo dos países produtores, é adquirido no Paraguai por cerca de US$
1.000, essa mesma quantidade é vendida em Lisboa por US$ 15 mil e em Hong Kong por
US$ 150 mil”, cita Spektor.
Mas se o fluxo da
droga produzida nos Andes perdeu força em portos do Brasil, ele não desapareceu
por completo. “Devido ao rigor da atuação da fiscalização no Porto de Santos,
as quadrilhas estão migrando para outros portos brasileiros”, diz José Roque,
diretor-executivo do Sindamar, que representa agências marítimas que atuam em
nome dos armadores.
“Há uma enorme
preocupação do segmento marítimo com referência aos embarques de drogas, que
podem acarretar prejuízos incalculáveis para a imagem dos armadores, além de
multas e do risco de apreensão do navio.”
Mesmo no Porto de
Santos – com seus 17 scanners de contêineres instalados, suas 4.400 câmeras
monitoradas pela Receita Federal, drones para a segurança, câmaras térmicas
para captar movimentos noturnos -, mesmo com tudo isso, carregamentos de
cocaína continuam sendo embarcados às escondidas, conforme indicam apreensões
periódicas da droga.
A exposição ao risco
de contaminação pelo narcotráfico tende a ser maior em portos com menor nível
de segurança. Além de Santos, Paranaguá, Itajaí, Rio Grande, Mucuripe, Vila do
Conde e Natal estão entre os portos com histórico de apreensões de cocaína.
Ainda que, via de
regra, as empresas de logística marítima não tenham envolvimento deliberado com
organizações de narcotraficantes, a descoberta de drogas em seus contêineres,
terminais ou navios, costuma gerar atrasos, longos questionamentos por parte da
polícia a funcionários e a executivos e desgastes junto a clientes.
Outro ponto
sensível: o suborno ou a ameaça a funcionários dos portos por parte de grupos
de traficantes, para que façam vistas grossas a determinados contêineres.
Risco da classificação de organizações criminosas como terroristas
Agora, mais um item
entra no cálculo. O risco para empresas de se tornarem alvo de ações judiciais
ou de sanções econômicas dos EUA se suas cargas forem flagradas com cocaína do
PCC ou do CV – recém-classificadas como terroristas pelos EUA – o que traz
implicações mais sérias para pessoas e empresas que venham a ser apontadas como
tendo algum tipo de “apoio material” a esses grupos.
“Com essa nova
classificação, o sarrafo aumenta para todo mundo” diz Glanzmann, do MoveInfra.
Segundo ele, empresas associadas já têm um padrão historicamente alto de
segurança. “Mas os desafios são diários e estamos cada vez mais dedicados a
oferecer mais segurança à carga e às pessoas e mais agilidade aos processos”,
diz.
Enquanto a produção
de cocaína avança na Bolívia, no Peru e na Colômbia – este o maior produtor do
mundo – o consumo na Europa continua fazendo dessa a droga que mais preocupa
autoridades do continente. O fato de o Brasil estar entre os dois polos tem
dado ao país uma perigosa condição de corredor transnacional do crime.
Especialistas
repetem que, governo após governo, o Brasil não tem sido capaz de apertar os
controles nas portas de entrada de toneladas e toneladas de cocaína proveniente
dos Andes. E em que a alta demanda pela droga alimenta um fluxo sem fim que usa
o Brasil e fortalece o crime organizado.
A PF diz que tem
ampliado suas ações “sobre as novas rotas e os novos métodos empregados pelo
narcotráfico internacional”.
Autor/Fonte: Marcos
de Moura e Souza — Jornal Valor Econômico
* Esclarecemos que a a publicação é de inteira responsabilidade do autor e do veículo que a divulgou. A nossa missão ao republicar é manter informado àqueles que nos acompanham, de todos os fatos, que de alguma forma, estejam relacionados com a Segurança Portuária em todo o seu contexto. A matéria veiculada apresenta cunho jornalístico e informativo, inexistindo qualquer crítica política ou juízo de valor. O espaço está aberto para a manifestação das pessoas e empresas citadas nesta reportagem.










Nenhum comentário:
Postar um comentário
Os comentários publicados não representam a opinião do Portal Segurança Portuária Em Foco. A responsabilidade é do autor da mensagem. Não serão aceitos comentários anônimos. Caso não tenha conta no Google, entre como anônimo mas se identique no final do seu comentário e insira o seu e-mail.