Maior
complexo portuário da América Latina é usado pela facção e por grupos europeus
para exportar cocaína
No maior complexo portuário da
América Latina, o Porto de Santos, o Primeiro Comando da Capital (PCC) trava
uma batalha tecnológica e logística com as forças de segurança para escoar
cocaína pura rumo à Europa, África e Oceania. A facção diversifica métodos e
rotas para lançar as cargas em alto-mar, e vender o produto ao mercado exterior
por preços elevados. Do outro lado, a polícia tenta desmantelar os grupos
criminosos, com a ajuda de drones subaquáticos e inteligência. Esse jogo entre
crime e polícia é tema do último episódio do Podcast PCC: O Salve Geral, uma
produção do GLOBO e da rádio CBN, que entrou no ar na última quinta-feira (21).
Apesar dos esforços das forças de
segurança, as apreensões no Porto de Santos caíram drasticamente nos últimos
anos, segundo dados inéditos da Polícia Federal. Em 2019, a PF apreendeu o
recorde de cerca de 27 toneladas de cocaína que seria exportada pelas
organizações criminosas. No último ano, foram menos de 7 toneladas — uma
redução de 75%.
Por outro lado, o mundo nunca
consumiu tanta cocaína. Produção, apreensões e uso da droga alcançaram novos
recordes em 2023, tornando a cocaína o mercado de drogas ilícitas que mais
cresce no mundo, segundo o último relatório do Escritório das Nações Unidas
sobre Drogas e Crime (UNODC).
As autoridades admitem que é difícil
mapear a próxima investida do PCC para exportar cocaína. O delegado Rodrigo
Perin Nardi, chefe da Polícia Federal em Santos, diz que a facção está
diversificando as formas de envio e também explorando outras rotas.
— Não tem um ponto que a gente pode
chegar e falar: migrou daqui de Santos e foi pra Xiboquinha da Serra. Não dá
pra falar isso porque a gente tem percebido que houve mesmo essa pulverização,
que eles estão se valendo daquele local que melhor atende as necessidades ou
até de uma forma pulverizada. Isso torna mais difícil nossa própria atuação —
afirmou.
Pela localização privilegiada e
geografia peculiar, a Baixada Santista se tornou um dos pontos mais importantes
para os negócios internacionais do PCC. Não só por abrigar o porto de Santos.
Mas também pelas comunidades encravadas em áreas de mangues e morros de difícil
acesso que favorecem as fugas dos criminosos e a camuflagem da droga.
— É o porto mais importante do
Hemisfério Sul, e o volume de navios aqui dificulta uma inspeção mais
minuciosa. Em um porto que você tem duas, três manobras por dia, a chance
daquela carga ser perdida é grande, e significa um prejuízo grande para o
tráfico de drogas. É muito mais fácil você utilizar um navio no meio de
centenas que são movimentados diariamente, para poder efetivamente esconder. A
rota é importante também. Muitos navios saem daqui em direção à Europa, Oriente
Médio, e esses locais efetivamente têm muita demanda pelo tráfico de drogas —
explicou o capitão de Fragata Igor da Silva Alves, comandante do Grupamento de
Patrulha Naval do Sul e Sudeste, da Marinha do Brasil.
Esconderijos
O primeiro método que o PCC usou para
despachar cocaína em grandes quantidades para o exterior é chamado de
rip-on/rip-off. A estratégia consiste em arrombar contêineres e recrutar
pessoas carregando grandes quantidades da droga em mochilas para despejá-la
rapidamente no compartimento, que é fechado com um lacre clonado para passar despercebido
pela alfândega. Na Europa, os parceiros internacionais do PCC conseguiam
resgatar a droga no porto de destino.
De lá pra cá, para despistar a
fiscalização, a operação foi aperfeiçoada com diferentes estratégias, como a
ocultação da droga entre sacas de grãos, o emprego de veleiros e até a
contratação de mergulhadores profissionais, que ocultam a carga no casco de
navios, nas chamadas caixas de mar.
— A dificuldade de quem coloca a
droga no casco é que o navio pode estar com as caixas de mar ligadas. E, com
isso, a pessoa pode ser sugada pela caixa e morrer ali durante a operação. É
uma operação bem arriscada, porque tem risco de morte — afirmou um mergulhador
da Marinha que atua no Porto de Santos e não quer ser identificado.
O mergulho em portos é perigoso
especialmente em lugares como Santos, onde a água é muito turva. Em 2022, um
brasileiro recrutado pelo PCC morreu no porto de Newcastle (Austrália) ao
mergulhar para tentar recuperar uma carga de cocaína. O incidente despertou
autoridades também para a entrada da facção na rota Ásia/Pacífico, que paga
mais pela cocaína no varejo.
Autora/Fonte: Aline Ribeiro / O Globo
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