Operação
Narco Sky é um desdobramento da Operação Narco Vela
A Polícia Federal (PF) deflagrou, na última
terça-feira (2/6), a Operação Narco Sky - desdobramento da Operação Narco Vela
- para desarticular uma organização criminosa (ORCRIM) especializada no tráfico
internacional de drogas.
As investigações, desenvolvidas com
apoio de mecanismos de cooperação jurídica internacional, identificaram uma
estrutura criminosa voltada ao transporte de carregamentos de entorpecentes do
Brasil para países da Europa e da África, mediante rotas marítimas
internacionais.
Cerca de 30 policiais federais
cumpriram 10 mandados de prisão preventiva e 3 de busca e apreensão expedidos
pela 5ª Vara Federal de Santos/SP, em endereços localizados nos estados de São
Paulo, do Rio Grande do Sul e do Pará.
A Justiça Federal também determinou o
bloqueio e o sequestro de mais de R$ 631 milhões em bens e valores. A decisão
autorizou ainda a inclusão de investigados na Difusão Vermelha da Interpol,
diante da existência de foragidos estrangeiros procurados por forças policiais
de outros países por suposto envolvimento com o tráfico internacional de
drogas.
PF investiga ligação de 'Capo' da máfia italiana com PCC para tráfico de
drogas
Um dos alvos é o mafioso sérvio Antun
Mrdeza, conhecido mundialmente como "Nikola Boros" por operações de
tráfico na América do Sul. Ele é apontado como integrante da máfia italiana
'Ndrangheta', que teria se aliado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) para
operar no País.
Preso desde maio de 2025 na
Venezuela, Mrdeza não atua apenas como financiador do tráfico internacional,
segundo a Polícia Federal. Os investigadores afirmam que ele comanda remessas
de cocaína para a Europa, supervisiona operações, cobra resultados e investe
recursos próprios para ampliar os lucros da organização criminosa.
A Polícia Federal afirma que
relatórios de inteligência e informações obtidas com fontes internacionais
identificam o mafioso sérvio como integrante da chamada "New Drug
Trafficking Board", descrita por autoridades colombianas como um novo centro
global de comando do narcotráfico. A estrutura seria usada para coordenar
alguns dos maiores carregamentos de cocaína do mundo e já é alvo de investigações
em ao menos sete países.
'Evento Mobydick'
Segundo a investigação, Antun Mrdeza
participou diretamente de uma operação internacional de tráfico de cocaína
realizada em 2020 com o uso do veleiro "Mobydick". A embarcação saiu
de Ilhabela, no litoral paulista, em direção a Las Palmas, na Espanha,
carregada com cocaína destinada ao mercado europeu.
O veleiro era comandado pelo capitão
sueco Axel Bertil Eriksson, que atravessou o Atlântico até o Brasil e chegou ao
Recife em março daquele ano. Depois, seguiu para Ilhabela em maio de 2020, onde
a embarcação passou pelos preparativos finais para receber a droga e iniciar a
travessia internacional.
A PF afirma que a carga de cocaína
destinada ao "Mobydick" estava ligada a um carregamento de 490,8
quilos da droga apreendido pela polícia brasileira em uma aeronave PT-RAS, em
Fernandópolis, no interior de São
multimodal, na qual a cocaína era
transportada inicialmente Paulo. A carga pertencia ao PCC, segundo
investigadores.
Para a polícia, a conexão revelou uma
"sofisticada cadeia logística por via aérea até pontos de concentração no
interior do País e, depois, levada ao litoral para exportação marítima rumo à
Europa".
A apreensão da droga e problemas
técnicos no veleiro provocaram atrasos na operação e geraram atritos entre os
integrantes da organização criminosa, principalmente entre operadores
brasileiros e o capitão estrangeiro responsável pela embarcação. Após
reorganizar a carga e solucionar os entraves técnicos, o grupo conseguiu
concluir o embarque da cocaína e iniciar a viagem em 30 de julho de 2020.
As investigações apontam que a
operação no Brasil contou com uma ampla estrutura de apoio em terra coordenada
por um investigado conhecido como Marco Aurélio de Souza, o
"Lelinho". Ele é um dos alvos de prisão preventiva desta operação.
Também integravam o núcleo logístico
apelidado pela PF de "equipe de suporte" nomes como
"Sapão", Walter Pires Junior, o "Waltinho", e Klaus de
Castro Rios Motta e Silva. Segundo os investigadores, eles eram responsáveis
por garantir toda a infraestrutura necessária para a preparação do veleiro e o
sucesso da travessia internacional da droga.
"Waltinho" e Klaus também
são alvo de prisão da Polícia Federal. A reportagem busca contato com a defesa
dos citados.
Nikola Boros e Jhon Gotti
A Polícia Federal e a Interpol
registram que, além de usar o nome "Nikola Boros", o megatraficante
Antun Mrdeza também é conhecido no submundo do crime como "John
Gotti", em referência ao gângster norte-americano que liderou a família
Gambino, considerada o "sindicato do crime" mais poderoso de Nova York
nas décadas de 1980 e 1990.
A atuação de Mrdeza no tráfico de
cocaína ganhou repercussão mundial após uma fuga cinematográfica no aeroporto
de Rionegro, na Colômbia, em 2023. Segundo a Polícia Federal, o sérvio entrou
no país usando a identidade falsa de "Nikola Boros" e chegou a ser
capturado por ser alvo de uma ordem de prisão internacional.
No momento em que seria expulso da
Colômbia, porém, conseguiu escapar do aeroporto com apoio externo e em meio a
disparos, episódio que, segundo os investigadores, "evidencia sua elevada
capacidade logística, proteção armada e rede de apoio típica de organizações
criminosas de alto nível".
Pivô de embate diplomático
A prisão de Antun Mrdeza na Venezuela
em maio de 2025 transformou o caso em um tema sensível da diplomacia
internacional.
Autoridades dos Estados Unidos vinculam
o sérvio ao narcotraficante colombiano Giovanny Andrés Rojas, o
"Araña", apontando que ambos teriam formado uma aliança para enviar
grandes carregamentos de cocaína por algumas das principais rotas globais do
tráfico.
Washington já formalizou pedidos de
extradição para que Mrdeza seja levado a um presídio de segurança máxima nos
EUA, mas a captura do mafioso em território venezuelano, em meio às tensões
políticas entre Caracas e Washington, tornou o caso um impasse diplomático.
Veja o nome dos outros oito alvos da operação:
- Marco Aurélio de Souza, conhecido como Lelinho
- Pedro Alonso Camacho Fernandez, o Vince
- Rafael Gonçalves Sayão, o Cabelinho
- Antônio Greg Ribeiro Pinheiro, o Fisherman
- Fábio Rodrigues Ulhoa Cintra, o Sapão
- Walter Pires Junior, o Waltinho
- Ivan de Freitas Santos
- Klaus de Castro Rios Motta e Silva
Os investigados poderão responder, em
tese, pelos crimes de organização criminosa, de tráfico internacional de drogas
e de associação para o tráfico.
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