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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

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PF DEFLAGRA OPERAÇÃO CONTRA TRÁFICO INTERNACIONAL DE DROGAS LIGADO À ‘NDRANGHETA

Ação é resultado de investigação conjunta entre Brasil e Itália e apura estrutura responsável pelo envio de drogas da América do Sul para a Europa

A Polícia Federal (PF), em conjunto com autoridades italianas, deflagrou, na quinta-feira (17), a “Operação Eredità”, que investiga uma estrutura criminosa transnacional suspeita de atuar no envio de cocaína da América do Sul para a Europa, com ligação com integrantes da máfia italiana ‘Ndrangheta.

A operação teve como base provas reunidas por uma Equipe Conjunta de Investigação (ECI) formada por integrantes do Ministério Público Federal (MPF), da Polícia Federal (PF), do Ministério Público de Turim e do Departamento Anticrime de Turim, do Raggruppamento Operativo Speciale (ROS) dos Carabinieri. A ECI funcionou entre 2020 e 2025.

Segundo a PF, foram cumpridos sete mandados de prisão preventiva e cinco de busca e apreensão, além de medidas patrimoniais que incluem sequestro de imóveis e bloqueio de bens, valores em contas bancárias e aplicações financeiras de pessoas físicas e jurídicas investigadas.

Alguns dos alvos já estavam presos por outras investigações. Três mandados de prisão foram cumpridos contra pessoas que estavam em liberdade.

As diligências ocorreram em Palhoça (SC), São Paulo, São Caetano do Sul, Santos e Americana (SP). A investigação é conduzida pela Polícia Federal no Paraná.

Desdobramento de outras operações

A Operação Eredità é resultado do aprofundamento das investigações das operações “Retis” e “Spiderweb”, que identificaram, segundo as autoridades, conexões entre grupos criminosos brasileiros e integrantes da ‘Ndrangheta para viabilizar o transporte de cocaína para países europeus.

A nova operação também é apontada como desdobramento das operações Samba e Mafiusi, realizadas no Brasil e na Itália em dezembro de 2024.

As investigações relacionaram a estrutura a pelo menos 11 apreensões realizadas entre 2019 e 2020, que totalizaram mais de 4,6 toneladas de cocaína com destino a diferentes países europeus. Segundo o MPF, também foi identificada uma estrutura financeira destinada a movimentar, ocultar e dissimular recursos provenientes do tráfico internacional.

Investigação

Segundo as investigações, o grupo continuou utilizando o Porto de Paranaguá (PR) como uma das principais rotas para o envio de cocaína à Europa, mesmo depois da prisão, em 2019, de integrantes italianos ligados à ‘Ndrangheta.

De acordo com o MPF, após essas prisões, familiares e pessoas próximas aos investigados teriam assumido funções anteriormente desempenhadas pelos integrantes detidos, mantendo contatos com fornecedores e operadores responsáveis pela logística e pela movimentação financeira das remessas.

As apurações indicam que a estrutura investigada participava de diferentes etapas da cadeia do tráfico, incluindo a obtenção, o transporte e o armazenamento da cocaína antes do envio ao exterior.

Entre os destinos apontados nas investigações estão Itália, Bélgica, Holanda, França e Portugal. O destino final de parte da droga seria a região do Piemonte, no norte da Itália.

Segundo o MPF, havia aproximadamente 2,2 toneladas de cocaína armazenadas no Brasil e destinadas à exportação. Parte dessa carga foi apreendida. As investigações apontam, contudo, que a estrutura teria continuado a obter novos carregamentos, chegando a um total superior a 4,6 toneladas relacionadas às apreensões investigadas até meados de 2025.

A PF também identificou pessoas que, segundo a investigação, seriam responsáveis pelo transporte de cocaína armazenada em São Paulo até o Paraná, de onde a droga seria encaminhada para a Europa.

A cooperação entre investigadores brasileiros e italianos também teria permitido esclarecer a identidade e o papel de pessoas que anteriormente apareciam apenas por apelidos ou codinomes nas investigações.

Estrutura financeira

Além da logística do tráfico, as investigações identificaram uma estrutura destinada, segundo as autoridades, a movimentar e ocultar recursos provenientes da venda de cocaína.

Parte das operações financeiras teria utilizado o chamado “sistema de dólar-cabo”, mecanismo informal de compensação utilizado em operações internacionais, no qual valores são disponibilizados em diferentes países sem necessariamente ocorrer uma transferência bancária internacional convencional.

Segundo os investigadores, operadores financeiros teriam capacidade de disponibilizar recursos em diferentes localidades para financiar a aquisição da droga e os custos relacionados à logística das remessas.

A PF também investiga a utilização de mecanismos de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro para dificultar a identificação da origem e do destino dos recursos.

Comunicações criptografadas

A investigação também analisou mensagens trocadas por plataformas de comunicação criptografadas, além de dados telemáticos, registros financeiros, informações sobre contêineres e outros elementos obtidos no Brasil e no exterior.

Segundo os investigadores, o cruzamento desses dados permitiu reconstruir parte da estrutura e identificar funções desempenhadas por diferentes integrantes.

A PF afirma ainda que parte dos recursos provenientes da venda da cocaína na Europa teria sido utilizada para financiar novas operações de tráfico.

Advogado é alvo da investigação

Um dos alvos da operação é o advogado Patrick Raasch Cardoso, de Santos, cuja prisão preventiva foi determinada pela Justiça Federal do Paraná.

Segundo informações divulgadas pela imprensa com base na investigação, Raasch é suspeito de atuar na estrutura financeira do grupo e de fazer a intermediação de comunicações entre integrantes da organização. Ele nega envolvimento, e sua defesa informou que pretende recorrer da prisão.

Cooperação internacional

A investigação contou com a cooperação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, no Brasil, e do Ministério Público de Turim, por meio da Direção Distrital Antimáfia (DDA), sob coordenação da Direção Nacional Antimáfia e Antiterrorismo e do Raggruppamento Operativo Speciale Carabinieri (ROS Carabinieri), na Itália.

A cooperação permitiu o compartilhamento de informações e a realização coordenada de diligências relacionadas à investigação de uma estrutura criminosa com atuação transnacional. A Europol também prestou apoio à investigação.

Crimes investigados

Segundo a PF, os investigados poderão responder, de acordo com a participação individual de cada um, pelos crimes de tráfico internacional de drogas, associação para o tráfico, organização criminosa e lavagem de dinheiro, sem prejuízo de outros delitos que possam ser identificados no decorrer das investigações.

Nome da Operação

O nome da operação, Eredità, significa “herança” em italiano.

Segundo a explicação apresentada pelo MPF, o nome faz referência à hipótese investigativa de que familiares e pessoas próximas teriam assumido funções anteriormente desempenhadas por integrantes da estrutura ligada à ‘Ndrangheta após as prisões realizadas em 2019.


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