A
Polícia Federal tem identificado uma mudança na estratégia do narcotráfico para
escoar cocaína do Brasil para a Europa e a África
Houve redução no uso de contêineres
em portos, e os criminosos passaram a investir mais em rotas marítimas
alternativas, utilizando embarcações pesqueiras, veleiros e semissubmersíveis.
Dados da Polícia Federal, que agregam
informações de diferentes instituições, mostram a apreensão de 15,6 toneladas
de cocaína em 2025 em portos brasileiros, uma redução de 76,6% em relação ao
pico da série em 2019, no total de 66,8 toneladas.
De acordo com autoridades ouvidas
pela reportagem, esses dados indicam uma tendência de redução nas apreensões de
cocaína em contêineres, tanto nos portos brasileiros quanto em terminais
estrangeiros que recebem cargas provenientes do Brasil.
Para investigadores, essa redução não
reflete necessariamente uma diminuição do fluxo de cocaína, mas sim uma mudança
nas estratégias adotadas pelas organizações criminosas.
A queda é observada tanto nos casos
em que a cocaína é escondida em cargas lícitas, como alimentos, madeira,
minério ou produtos industrializados, quanto na modalidade conhecida como
rip-on/rip-off.
Nesse método, criminosos violam o
contêiner após inspeção e lacração, inserem a droga clandestinamente e,
posteriormente, retiram a carga ilícita no porto de destino antes que o
contêiner seja entregue. Em geral, exportador e importador não têm conhecimento
da operação criminosa.
Um dos casos mais emblemáticos
ocorreu em agosto do ano passado, quando a Marinha da França apreendeu seis
toneladas de cocaína em uma embarcação de bandeira brasileira em águas
internacionais, ao largo da costa da África Ocidental.
A ação foi resultado de um trabalho
de inteligência que envolveu a Polícia Federal e agências internacionais da
França, Reino Unido e Estados Unidos.
Somente em 2025, sete operações
conduzidas em conjunto com autoridades estrangeiras resultaram em apreensões de
drogas em rotas marítimas com destino a países como Portugal e França.
Segundo autoridades da Polícia
Federal e da Receita Federal, não há um único fator capaz de explicar a redução
das apreensões de cocaína em contêineres nos portos brasileiros. Entre as
principais hipóteses está o fortalecimento das medidas de segurança portuária
nos últimos anos.
Nos principais portos do país,
praticamente a totalidade das cargas destinadas à exportação passa por inspeção
por scanners. Houve ainda ampliação dos sistemas de videomonitoramento nos
terminais, maior controle de acesso às áreas portuárias e aperfeiçoamento dos
mecanismos de gerenciamento de risco e fiscalização.
A cocaína é a principal droga
exportada pelo Brasil para os mercados internacionais. A maconha aparece em
operações voltadas ao combate à entrada de entorpecentes no país para consumo
interno.
"A cocaína representa cerca de
80% das apreensões de drogas da Receita Federal voltadas para o exterior",
disse o auditor-fiscal Maurício Santos Silva, coordenador-geral substituto de
Combate ao Contrabando e Descaminho da Receita Federal.
A Polícia Federal também observa o
aparente aumento do uso de portos de países como Colômbia, Equador e Peru para
o envio de cocaína à Europa. Esses países estão mais próximos das áreas
produtoras da droga, o que pode representar vantagens logísticas para as
organizações criminosas.
As cargas destinadas ao mercado
internacional costumam ser operadas por grandes traficantes, conhecidos como
brokers, que controlam a compra, o armazenamento e o transporte da cocaína.
Em território brasileiro,
frequentemente recorrem ao apoio logístico de facções criminosas, como o PCC
(Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho, em regiões onde exercem
influência sobre rotas de transporte, áreas portuárias e estruturas de
distribuição.
Nesses locais, as facções costumam
fornecer serviços de proteção, armazenamento, transporte e facilitação do
escoamento da droga.
Como a Folha mostrou, as duas maiores
facções criminosas do Brasil estão presentes nas 27 unidades da federação, mas
com hegemonia em 13 estados brasileiros.
O PCC tem hegemonia em Mato Grosso do
Sul, Minas Gerais, Paraná, Rondônia, Roraima, São Paulo e Piauí. Já o CV tem
domínio sobre seis estados: Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Tocantins e Rio
de Janeiro, estado onde surgiu.
Fonte: Raquel Lopes - Brasília – DF -FolhaPress
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