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domingo, 26 de abril de 2026

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CASOS DO CAIS: ENCURRALADOS A BORDO

Um bancário universitário acabou cercado por tripulantes dentro de um navio — sem nem saber direito onde estava se metendo

No início da década de 80, eu trabalhava como caixa de banco no período da manhã e estudava à noite numa universidade da cidade.

Durante uma aula, um colega virou pra mim e falou:

— Carvalhal, abriu concurso na Receita Federal. Bora se inscrever?

— Pra quê?

— AVR — Auxiliar de Vigilância e Repressão.

— E faz o quê?

— Sei lá… trabalha no porto.

— Então bora.

Me inscrevi sem muita pretensão. Já tinha emprego. A intenção seria treinar pra depois tentar entrar na Polícia Federal ou virar fiscal da própria Receita.

Passei.

Fiz um treinamento rápido, coisa de uma semana, no prédio da Alfândega.

Na semana seguinte, já estava no cais — sem nem saber direito onde estava pisando.

Logo no primeiro dia fui escalado pra trabalhar a bordo de um navio atracado no cais do Saboó.

Detalhe: eu nem sabia onde ficava o Saboó.

Peguei um ônibus que nem chegava perto do cais e ainda tive que completar o caminho a pé, passando por uma área conhecida como Cracolândia.

Comecei bem…

Já a bordo, o vigia me chamou:

— AVR, passaram a fita de que tá rolando uma “barrigada” de óculos Ray-Ban.

Na minha total inocência:

— Barrigada? O que é isso?

Ele explicou:

— Os caras estão saindo com os óculos escondidos na barriga.

Esses óculos eram moda na época, caros e difíceis de conseguir.

Fui pra escada do navio e comecei a revistar todo mundo que descia.

Os estivadores ficaram meio sem entender, porque aquilo não era comum.

Mas, pra minha sorte, respeitaram a autoridade que eu representava.

Se fosse hoje, talvez a história fosse outra…

Resultado: não achei um óculos sequer.

Algum tempo depois, fui escalado para um navio, atracado no cais onde hoje está instalado o Parque Valongo.

Durante uma ronda pelo convés, notei uma corda pendurada do lado do mar.

Sem rádio, fui até a proa e gritei pra um colega em outra embarcação:

— Keno! Keno! Vem aqui, achei uma corda do lado do mar!

— Tô indo, Carvalhal!

Keno era mais experiente, descendente de japoneses, olho clínico pra esse tipo de coisa.

Assim que chegou, bateu o olho e falou:

— Essa corda é pra uma arriada. Tem mercadoria escondida por aí.

E não deu outra.

Juntos, realizamos uma inspeção e encontramos alguns sacos, com várias caixas dentro.

Era apreensão na certa.

Só que não deu nem tempo de comemorar.

Em poucos segundos, vários tripulantes começaram a nos cercar.

A situação ficou tensa.

Sem ter pra onde correr, ficamos de costas um pro outro, estilo filme, tipo Indiana Jones, tentando se proteger.

Alguns estivadores a cena e avisaram o vigia, que acionou o plantão da Receita Federal.

Uma viatura chegou ao costado do navio.

Mas os tripulantes tinham levantado à escada.

Ninguém subia. Ninguém descia.

A coisa ficou feia.

Foi aí que acionaram a Polícia Federal.

Os agentes chegaram e já desceram da viatura com arma em punho.

Apontaram pros tripulantes e gritaram:

— Lower the ladder! Baixa a escada!

Na hora, a escada foi arriada.

Os agentes subiram e finalmente conseguimos sair daquela situação.

Foi por pouco.

Essa acabou sendo minha primeira apreensão.

Dentro dos sacos havia várias caixas de serras — aquelas usadas em arco de serra.

Produto brasileiro, que estava sendo desviado antes de seguir ao exterior.

Os tripulantes foram levados para a sede da Polícia Federal para prestar depoimento.

E o material foi encaminhado para a Alfândega.

Lá, tivemos que contar uma por uma das serras pra formalizar a apreensão.

Anos depois, já na Guarda Portuária, fui apresentar uma ocorrência no 1º Distrito, no Palácio da Polícia.

E quem eu encontro?

O Keno.

Meu parceiro daquela confusão toda estava lá. Após terminar o contrato na Receita Federal ele prestou concurso para investigador na Polícia Civil.

A gente se olhou, deu risada…

E lembrou:

— Rapaz… naquele dia a gente quase ficou por lá.

Moral da história: no cais, quem não tem experiência aprende rápido — porque o risco não espera ninguém ficar pronto.

Texto: Carlos Carvalhal

Ilustração: Gerada por IA — Inteligência Artificial.

 

* Esta é uma história memorialista, de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são fictícios. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque quem conta um conto sempre aumenta um ponto.

 

Leia os três últimos casos publicados clicando nas ilustrações abaixo:




Leia todos os casos publicados clicando aqui:


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