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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

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INVESTIGAÇÃO IDENTIFICA MERGULHADORES ACUSADOS DE INSERIR DROGA NO CASCO DE NAVIO NO PORTO DE SANTANA

Prédio da Polícia Federal em Macapá - Amapá

Segundo a Polícia Federal, grupo é acusado de acoplar 155 kg de cocaína ao casco de um navio que estava atracado no porto

Os bastidores da investigação que levou à identificação de mergulhadores suspeitos de participar da inserção de drogas no casco de um navio no Porto de Santana, no Amapá, foram detalhados em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo.

Segundo a reportagem, a investigação começou a partir de uma denúncia anônima em 28 de março de 2024, que forneceu aos policiais apenas o primeiro nome de um dos suspeitos: “Ângelo”. A partir dessa informação, a Polícia Federal realizou diligências para identificar o homem e passou a acompanhar as movimentações do grupo.

A investigação resultou na apreensão de 155 quilos de cocaína, encontrados na parte submersa do navio.

Droga apreendida localizado no casco de navio - Foto: Divulgação PF

Denúncia anônima

Segundo o delegado Bruno Belo, da Polícia Federal, uma denúncia anônima informou que um homem chamado Ângelo sairia de São Paulo com destino a Macapá para realizar uma operação envolvendo o mergulho no rio Amazonas e a colocação de cocaína no casco de um navio que deixaria o Porto de Santana com destino à Europa.

Como a informação não indicava o sobrenome do suspeito nem fornecia outros dados de identificação, os investigadores passaram a procurar pessoas que pudessem corresponder à descrição.

Um dos nomes identificados foi Ângelo Lourenço Bonfogo, paulista que havia viajado para Macapá dois dias antes. De acordo com a investigação, ele estava hospedado em uma chácara na companhia de Ricardo de Souza Silva, também de São Paulo.

Ainda segundo a PF, Ricardo havia sido preso em flagrante em 2012 em um caso relacionado ao tráfico de drogas

Monitoramento

A partir das informações levantadas, a Polícia Federal passou a monitorar a movimentação dos suspeitos na propriedade onde estavam hospedados.

Chácara monitorada pela Polícia Federal - Foto: FolhaPress - Relatório da PF

Durante as diligências, Harrison Magalhães da Silva também entrou no radar dos investigadores, segundo a PF.

De acordo com o inquérito, em 5 de abril, os policiais observaram o grupo comprando materiais de mergulho numa loja em Macapá.

Posteriormente, os investigados sairam à noite numa embarcação rápida, chamada no meio policial de “voadeira”, com cilindros de ar comprimido e retornaram pouco depois da meia-noite, usando roupas de mergulho.

Em relatório citado na investigação, o agente federal Davi Cavalcanti avaliou que a movimentação poderia estar relacionada a identificação do local de ocultação da droga no casco da embarcação.

Com base nos elementos reunidos, a Polícia Federal solicitou, em 6 de abril, ao Ministério Público do Amapá medidas judiciais relacionadas aos investigados. A Justiça autorizou as diligências no mesmo dia, incluindo medidas de busca e apreensão.

Durante o prosseguimento das apurações, os investigadores identificaram o Dyna Floresta, de bandeira da Libéria, como o navio que seria alvo da ação. A embarcação opera sob a bandeira da Libéria.

Monitoramento no Porto de Santana

Ainda de acordo com a Polícia Federal, imagens obtidas durante o monitoramento pelas câmeras de segurança do Porto de Santana flagraram, no dia 9, uma pequena embarcação se aproximando do cargueiro naquela noite.

Segundo a polícia, foi nessa ocasião que a droga foi ocultada no navio.

No dia seguinte, os investigadores realizaram uma inspeção na parte submersa da embarcação e localizaram 155 quilos de cocaína.

Segundo a reportagem da Folha, as imagens mostrando um drone equipado com câmera térmica registrando a aproximação da voadeira utilizada pelo grupo, foram anexadas ao inquérito.

Monitoramento da embarcação se aproximando do porto - Foto: FolhaPress - Relatório da PF

Prisão

Após a localização da droga, a Polícia Federal cumpriu os mandados judiciais contra os investigados, que foram presos.

Defesa contesta investigação

As defesas dos acusados contestam a investigação e alegam que a Polícia Federal teria realizado uma campana de forma ilegal. Também afirmam que os investigados teriam sido torturados durante e após a prisão.

O advogado Jorge Zanette, que representa os acusados, também afirmou ter sido ameaçado e agredido quando esteve no Amapá.

A defesa sustenta ainda que seus clientes pretendiam roubar a droga, e não participar de sua exportação. Segundo o advogado, não haveria elementos suficientes para comprovar a participação dos acusados no tráfico internacional.

“Se posteriormente, após a retirada, os acusados cometeriam o crime de tráfico é outra situação, que jamais ocorreu”, afirmou a defesa.

Condenação

Os acusados foram condenados a 12 anos de prisão pelos crimes pelos quais foram denunciados, entre eles tráfico internacional de drogas e associação para o tráfico. As defesas recorreram das decisões.

A defesa sustenta que a conduta atribuída aos acusados não configuraria tráfico internacional de drogas, mas estaria relacionada à subtração de uma substância ilícita.

Essa é uma tese defensiva e não uma conclusão judicial definitiva.

Possível conexão com o PCC

Segundo a Polícia Federal, a investigação identificou elementos que apontariam para uma possível conexão do caso no Amapá com o Primeiro Comando da Capital (PCC).

A própria corporação, entretanto, ressalta que o uso de mergulhadores para a colocação de drogas em embarcações não seria uma prática exclusiva da facção.

Mergulhadores em outras investigações

Investigações realizadas em diferentes regiões do país também já identificaram o uso de mergulhadores em operações relacionadas ao tráfico internacional de drogas.

Segundo as autoridades, o modus operandi consiste em esconder carregamentos de cocaína em partes submersas de embarcações, permitindo que a droga seja transportada sem estar necessariamente acondicionada na carga declarada dentro dos contêineres transportados oficialmente no navio.

A mudança de rota para outros portos preocupa as autoridades. Segundo a Folha, o aumento da fiscalização no Porto de Santos contribuiu para a pulverização das rotas de exportação de cocaína pela costa brasileira.

No Rio de Janeiro, por exemplo, o uso de mergulhadores aparece ligado ao Comando Vermelho (CV).

Segundo o Ministério Público Federal, um núcleo da organização teria utilizado, entre outras estratégias, mergulhadores para inserir drogas em embarcações. Em uma dessas ações, a Polícia Federal apreendeu 362,5 quilos de cocaína em um navio no Porto de Itaguaí. Cinco pessoas foram condenadas no caso e recorrem das decisões.

Em Santa Catarina, investigações também atribuíram a utilização desse método a integrantes do Primeiro Grupo Catarinense (PGC), em diferentes portos da região Sul.

Segundo o Ministério Público, o empresário Ângelo Scotti Júnior seria um dos responsáveis por uma estrutura logística relacionada ao tráfico internacional de drogas. A defesa afirmou à reportagem que ainda não teve acesso à íntegra do processo e que se manifestaria após analisar o conteúdo.

Ainda segundo a Polícia Federal, o grupo investigado utilizaria empresas autorizadas a transportar cargas até os portos e teria estruturas voltadas à lavagem de dinheiro e ao envio de drogas para o exterior.

PF também acusa integrantes do grupo de participar de operações para acoplar drogas aos cascos de navios em diferentes ocasiões.

Em relação a Breno Mafra Rodrigues, por exemplo, a Polícia Federal afirma que ele teria participado de sete ações entre 2023 e 2025, três delas com resultado positivo. A defesa informou que se manifestaria, mas não havia apresentado posicionamento até a publicação da reportagem.

Outro investigado, José Carlos Martins, é apontado pela PF como participante de operações semelhantes em 2023 e 2024, dando apoio na superfície enquanto eles estavam embaixo d'água. Ele foi preso em abril de 2026 a pedido da Polícia Federal.

O advogado Paulo Marcos da Silva afirmou que José Carlos nega as acusações e confia que o processo permitirá o esclarecimento dos fatos. Segundo o defensor, o investigado é pescador artesanal, possui vida simples e patrimônio compatível com sua renda.

Fonte: Com informações de André Fleury Moraes/Folhapress


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