Com acesso precário, fiscalização frouxa e tragédias,
maior porto do Pará opera sob denúncias de irregularidades e ausência de gestão
efetiva
A rotina no complexo
portuário de Vila do Conde, em Barcarena, escancara um problema que vai além da
infraestrutura: trata-se de um vácuo de gestão federal em área estratégica, com
reflexos diretos na segurança pública e na economia.
Sob responsabilidade
da Companhia Docas do Pará, a CDP, vinculada à União, o maior porto do Estado
convive com denúncias recorrentes de circulação de cargas suspeitas, incluindo
minério de origem irregular e drogas, em meio a um cenário de fiscalização
considerada insuficiente.
Na prática, o que se
vê é um fluxo intenso de carretas cruzando o sistema viário portuário - muitas
vezes sem o controle rigoroso esperado para uma área de jurisdição federal, o
que limita a atuação direta das forças estaduais de segurança.
Rota livre
A condição de porto
federal cria uma zona cinzenta: enquanto a responsabilidade de fiscalização é
da União, o Estado assiste, com restrições operacionais, à movimentação de
cargas potencialmente ilícitas. Fontes ouvidas pela coluna apontam que a
fragilidade no controle de acesso e circulação acaba transformando o complexo
em rota sensível para práticas ilegais, com baixa capacidade de resposta
imediata por parte das autoridades locais.
Estradas do caos
O problema não se
limita ao controle. O acesso ao porto é outro gargalo.
A chamada Via
Alimentadora, de responsabilidade direta da CDP, apresenta condições precárias
de trafegabilidade. Buracos, desgaste do pavimento e ausência de manutenção
adequada dificultam o fluxo diário de caminhões e elevam o risco de acidentes.
A via funciona como
ligação direta entre a rodovia PA-481 (Transalumínio) e as áreas operacionais
do porto - ou seja, é um eixo vital para o escoamento de cargas. Em contraste,
a Transalumínio, utilizada inclusive por operações privadas, recebe manutenção
regular, o que escancara a diferença de gestão entre o público e o privado
dentro do mesmo corredor logístico.
Passivo de dez anos
O histórico de Vila
do Conde ajuda a entender o cenário atual. Há dez anos, o naufrágio do navio
“Haidar” marcou o porto com um dos episódios mais emblemáticos da região: cerca
de 5 mil bois mortos e centenas de toneladas de óleo lançados ao rio. A
embarcação segue submersa até hoje.
Desde então,
tentativas frustradas de remoção consumiram milhões de reais, sem solução
definitiva. Parte da estrutura portuária foi interditada, e áreas próximas entraram
em processo de degradação.
Relatos indicam que
berços de atracação apresentam desgaste avançado, enquanto equipamentos como
cabeços operam no limite, elevando o risco de um novo acidente de grandes
proporções.
Operação e discurso
Ao longo dos anos
desde o naufrágio, a CDP sustenta que o porto segue operando normalmente e que
o naufrágio não compromete as atividades. A companhia afirma ainda que o navio
não representa risco ambiental ativo e que o tema da remoção permanece em
análise técnica e jurídica.
Na ponta, no
entanto, o que se observa é um ambiente de estrutura fragilizada, acesso
comprometido e controle questionado. O caso de Vila do Conde reúne, no mesmo ponto,
três fatores críticos: infraestrutura deteriorada, fragilidade na fiscalização
e circulação de cargas sensíveis em área federal. A combinação transforma o
porto em um ponto de atenção não apenas logístico, mas também de segurança
institucional.
No Pará, o problema
dos portos deixou de ser apenas administrativo.
Hoje, é questão de
controle. Se o controle falha, sobretudo em território federal, o que passa não
é só carga; é o risco.
Autor/Fonte: Olavo Dutra/Portal do Olavo Dutra
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