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APÓS TENTAR A TERCEIRIZAÇÃO, CDP DIVULGA NOVO CONCURSO PARA A GUARDA PORTUÁRIA

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quinta-feira, 30 de julho de 2026

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CRIME ORGANIZADO ALTERA LOGÍSTICA PARA MANTER TRÁFICO PARA A EUROPA


Organizações criminosas que lucram com o tráfico internacional de cocaína estão mudando sua forma de operar no Brasil

Há anos, esses grupos – o Primeiro Comando da Capital (PCC) é o maior deles – embarcam clandestinamente pacotes da droga em contêineres que saem de portos do Brasil em cargueiros rumo, principalmente, à Europa.

Para reduzir o risco de terem suas cargas “contaminadas” e seus funcionários ameaçados ou comprados pelo crime, empresas operadoras portuárias vêm reforçando medidas de segurança e de tecnologia. Polícia Federal, Receita Federal e outros órgãos também têm intensificado ações de controle.

Com portos mais vigiados, as apreensões despencaram. Em 2022, a PF registrou 32.470 kg de cocaína apreendidos em portos brasileiros. Em 2025, 15.630 kg. E em 2026, até junho, apenas 3.197 kg – um indicativo de que há menos cocaína passando atualmente pelos portos brasileiros em direção ao exterior.

Porto de Santos

No Porto de Santos – o maior do Brasil -, as apreensões também estão em queda. Em 2019, a Receita Federal apreendeu 27.053 quilos de cocaína no porto; em 2025, foram 6.428 quilos.

Mas isso está longe de significar um enfraquecimento de grupos e facções que faturam com o comércio internacional de cocaína. É o que afirmam fiscais federais, integrantes da Receita e a própria Polícia Federal.

“A redução das apreensões de cocaína em contêineres, especialmente no Porto de Santos, não deve ser interpretada como uma diminuição do tráfico internacional de drogas, mas, sim, como um indicativo da constante adaptação das organizações criminosas diante do aumento da capacidade estatal de fiscalização e repressão”, disse a PF, por meio de nota, ao Valor.

A polícia afirma que tem havido um reforço do emprego de scanners de contêineres, maior capacitação de equipes especializadas – como cursos de mergulho operacional e inspeção subaquática -, utilização de embarcações e tecnologias específicas, além do aprimoramento da análise de risco sobre empresas exportadoras, cargas e rotas marítimas.

Terminais Privativos

Empresas privadas que são operadoras portuárias também investem alto em segurança. Ronei Glanzmann, CEO do MoveInfra, entidade que reúne seis das maiores empresas de infraestrutura do Brasil, diz que elas mantêm um padrão alto de segurança para reduzir os riscos de que suas estruturas sejam usadas pelo crime organizado.

“A Santos Brasil [uma das empresas ligadas ao MoveInfra], por exemplo, investiu R$ 55 milhões entre 2023 e 2025 em tecnologia e inteligência para combater esse tipo de atuação [de narcotraficantes]. São investimentos em Tecnologias 3D, Digital Twin (que espelha o mundo real), Internet das Coisas, Machine Learning, realidade aumentada e uso de drones”, diz Glanzmann.

Esses movimentos surtiram um efeito: tornou mais caro para o crime organizado no Brasil manter os portos e os cargueiros como sua principal solução logística para o envio de cocaína para a Europa ou outras regiões, afirma a PF.

É uma mudança que tem levado criminosos do PCC e de outros grupos do Brasil a reverem suas operações a fim de reduzir o risco de perderem cargas de cocaína. Quase todas são cargas milionárias.

Somente uma das apreensões em Santos este ano, de 461 quilos da droga em fevereiro, teria o valor aproximado de US$ 15 milhões. A estimativa leva em conta o preço de US$ 32 mil por quilo da cocaína, pagos por traficantes na França e na Itália, segundo o World Drug Report 2026, relatório do escritório da ONU para drogas, de junho.

Principal alvo de autoridades federais que combatem o crime organizado no Brasil, o PCC – por meio de seus líderes e operadores — movimenta grandes somas com o comércio de cocaína para a Europa. Em entrevista ao Valor em junho, o porta-voz da Europol disse que criminosos da facção desempenham hoje o papel de operadores logísticos de quase toda a cocaína que passa pelo Brasil rumo à Europa. E que são parceiros de todas as máfias europeias.

O Departamento de Estado dos EUA incluiu em junho o PCC, assim como o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, na lista de grupos considerados organizações terroristas estrangeiras. O CV tem tido uma atuação menos relevante no narcotráfico internacional, dizem autoridades, concentrando sua atuação no território brasileiro.

Com portos e terminais mais vigiados, criminosos têm se adaptado a outras rotas. E, nesse caso, o Equador se tornou uma opção. Assim como o Brasil, o país não produz cocaína. Os cultivos de coca e a produção de cocaína estão concentrados em três vizinhos: Bolívia, Peru e Colômbia.

O Equador viu em anos recentes o aumento da presença de organizações criminosas ligadas ao tráfico internacional de cocaína. O PCC é uma delas. De acordo com o World Drug Report 2026, Brasil e Equador foram, entre 2020 e 2024, os principais pontos de onde partiram navios apreendidos com cocaína na Europa, África e Ásia.

“As organizações criminosas passaram a diversificar tanto as rotas quanto os modais empregados. Há um crescimento da utilização da rota pelo eixo Colômbia-Equador-Europa”, disse a PF.

Há outras mudanças. “Paralelamente a isso, há um aumento no Brasil do emprego de embarcações de menor porte e maior autonomia, como pesqueiros, veleiros e embarcações semissubmersíveis, capazes de realizar travessias oceânicas ou transferências de carga em alto-mar”, afirma a Polícia Federal.

Em novembro de 2025, dois pesqueiros que tinham saído de Santa Catarina levando sete toneladas de cocaína foram barrados por autoridades nas proximidades da Ilha da Madeira. Investigações apontaram para uma rede cujos pesqueiros recebiam no mar, na costa nordestina e também no Suriname, pacotes de cocaína – levados por lanchas. Os pesqueiros, então, seguiam para a Europa.

No início de julho, uma operação da Polícia Federal e da Marinha, com apoio de órgãos dos EUA, interceptou mais um barco de pesca levando 3.748 kg de cocaína, na costa do Pará. Os tripulantes eram brasileiros. Veleiros também passaram a ser usados com mais frequência na travessia.

A PF diz que as parcerias entre autoridades brasileiras e estrangeiras têm aumentado a capacidade de interceptação da droga ao longo da rota internacional.

A mais ousada opção de transporte marítimo usada por criminosos ligados ao crime transnacional são os rudimentares submersíveis. Embarcações que começaram a ser fabricadas e usadas por traficantes da Colômbia e que hoje são fabricados às escondidas no litoral do Amapá e na Ilha do Marajó, segundo afirmou à reportagem o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (ANFFA Sindical), que reúne auditores fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Essas embarcações chegam a ter 15 metros de comprimento e funcionam com motor a diesel. Carregam grandes quantidades de cocaína e levam três tripulantes, guiados por GPS, diz o sindicato dos fiscais que acompanham de perto a movimentação de cargas nos portos.

Todas essas artimanhas têm uma justificativa simples: o estímulo econômico. É o que lembra o professor de Relações Internacionais da FGV, Matias Spektor. Ele e outro acadêmico da FGV, Oto Montagner, têm estudado as dinâmicas do crime organizado e suas relações entre Brasil e outros países.

“Enquanto 1 kg de cocaína, vindo dos países produtores, é adquirido no Paraguai por cerca de US$ 1.000, essa mesma quantidade é vendida em Lisboa por US$ 15 mil e em Hong Kong por US$ 150 mil”, cita Spektor.

Mas se o fluxo da droga produzida nos Andes perdeu força em portos do Brasil, ele não desapareceu por completo. “Devido ao rigor da atuação da fiscalização no Porto de Santos, as quadrilhas estão migrando para outros portos brasileiros”, diz José Roque, diretor-executivo do Sindamar, que representa agências marítimas que atuam em nome dos armadores.

“Há uma enorme preocupação do segmento marítimo com referência aos embarques de drogas, que podem acarretar prejuízos incalculáveis para a imagem dos armadores, além de multas e do risco de apreensão do navio.”

Mesmo no Porto de Santos – com seus 17 scanners de contêineres instalados, suas 4.400 câmeras monitoradas pela Receita Federal, drones para a segurança, câmaras térmicas para captar movimentos noturnos -, mesmo com tudo isso, carregamentos de cocaína continuam sendo embarcados às escondidas, conforme indicam apreensões periódicas da droga.

A exposição ao risco de contaminação pelo narcotráfico tende a ser maior em portos com menor nível de segurança. Além de Santos, Paranaguá, Itajaí, Rio Grande, Mucuripe, Vila do Conde e Natal estão entre os portos com histórico de apreensões de cocaína.

Ainda que, via de regra, as empresas de logística marítima não tenham envolvimento deliberado com organizações de narcotraficantes, a descoberta de drogas em seus contêineres, terminais ou navios, costuma gerar atrasos, longos questionamentos por parte da polícia a funcionários e a executivos e desgastes junto a clientes.

Outro ponto sensível: o suborno ou a ameaça a funcionários dos portos por parte de grupos de traficantes, para que façam vistas grossas a determinados contêineres.

Risco da classificação de organizações criminosas como terroristas

Agora, mais um item entra no cálculo. O risco para empresas de se tornarem alvo de ações judiciais ou de sanções econômicas dos EUA se suas cargas forem flagradas com cocaína do PCC ou do CV – recém-classificadas como terroristas pelos EUA – o que traz implicações mais sérias para pessoas e empresas que venham a ser apontadas como tendo algum tipo de “apoio material” a esses grupos.

“Com essa nova classificação, o sarrafo aumenta para todo mundo” diz Glanzmann, do MoveInfra. Segundo ele, empresas associadas já têm um padrão historicamente alto de segurança. “Mas os desafios são diários e estamos cada vez mais dedicados a oferecer mais segurança à carga e às pessoas e mais agilidade aos processos”, diz.

Enquanto a produção de cocaína avança na Bolívia, no Peru e na Colômbia – este o maior produtor do mundo – o consumo na Europa continua fazendo dessa a droga que mais preocupa autoridades do continente. O fato de o Brasil estar entre os dois polos tem dado ao país uma perigosa condição de corredor transnacional do crime.

Especialistas repetem que, governo após governo, o Brasil não tem sido capaz de apertar os controles nas portas de entrada de toneladas e toneladas de cocaína proveniente dos Andes. E em que a alta demanda pela droga alimenta um fluxo sem fim que usa o Brasil e fortalece o crime organizado.

A PF diz que tem ampliado suas ações “sobre as novas rotas e os novos métodos empregados pelo narcotráfico internacional”.

Autor/Fonte: Marcos de Moura e Souza — Jornal Valor Econômico


* Esclarecemos que a a publicação é de inteira responsabilidade do autor e do veículo que a divulgou. A nossa missão ao republicar é manter informado àqueles que nos acompanham, de todos os fatos, que de alguma forma, estejam relacionados com a Segurança Portuária em todo o seu contexto. A matéria veiculada apresenta cunho jornalístico e informativo, inexistindo qualquer crítica política ou juízo de valor.  O espaço está aberto para a manifestação das pessoas e empresas citadas nesta reportagem.     

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quarta-feira, 29 de julho de 2026

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PF CONCLUI QUE CONCESSIONÁRIA DE CARROS DE LUXO LAVAVA DINHEIRO DE ESQUEMA DO PCC E CV QUE USAVA O PORTO DO RIO

Empresa em Osasco sofreu intervenção judicial. Dois investigados que estavam presos também passaram a responder por esse núcleo da Operação Commodity

A Polícia Federal concluiu que uma concessionária de veículos de alto luxo, em Osasco (SP), era usada para lavar dinheiro de uma organização criminosa ligada ao tráfico internacional de drogas. Segundo os investigadores da Operação Commodity, o estabelecimento fazia parte da estrutura financeira responsável por dar aparência legal aos recursos obtidos com o envio de cocaína para a Europa, em um esquema que envolvia criminosos do CV e PCC. A Justiça determinou intervenção judicial na empresa.

A investigação também incluiu nesse núcleo Rodrigo de Paula Morgado, apontado pela PF como o "Contador do PCC", e Wanderson Machado de Oliveira, conhecido como "Del Piero" ou "Pen Drive". Os dois já estavam presos por outras investigações, mas agora passam a responder também pelos crimes apurados na Operação Commodity.

Segundo a denúncia apresentada pela PF, "a macroestrutura de lavagem corporativa foi desenhada e gerida pelo operador Rodrigo de Paula Morgado (...), responsável por prover estruturas societárias instrumentais ao grupo investigado".

Morgado também foi investigado na Operação Narco Fluxo, que levou às prisões dos funkeiros MC Poze do Rodo e MC Ryan SP. A Polícia Federal aponta o empresário como integrante do núcleo financeiro da organização criminosa investigada.

PF conclui que concessionária lavava dinheiro do PCC e CV - Foto: Reprodução

A concessionária alvo da investigação ocupa um amplo showroom em Osasco, na Grande São Paulo, onde são expostos dezenas de veículos de alto padrão. As imagens obtidas pelo g1 mostram modelos de marcas como Ferrari, Porsche, Corvette e Land Rover, além de SUVs e esportivos.

PF conclui que concessionária lavava dinheiro do PCC e CV - Foto: Reprodução

Organização tinha divisão de tarefas

De acordo com a investigação, a organização criminosa mantinha uma estrutura altamente especializada, dividida entre um núcleo responsável pelo envio internacional da droga e outro dedicado exclusivamente à lavagem dos recursos obtidos com o tráfico.

A PF afirma que o grupo possuía vínculos operacionais com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), utilizando empresas de fachada, movimentações em criptomoedas e negócios aparentemente regulares para ocultar a origem do dinheiro.

Enquanto Wanderson Machado de Oliveira seria o responsável por coordenar a logística internacional do tráfico e controlar a movimentação financeira da organização a partir da Europa, Rodrigo Morgado seria o operador encarregado de inserir os recursos ilícitos na economia formal.

Rodrigo Morgado foi preso pela polícia Federal em Santos (SP) - Foto: redes Sociais

Segundo a investigação, Morgado fornecia empresas de fachada, utilizava notas fiscais sem lastro e convertia milhões de reais em criptoativos para dificultar o rastreamento das movimentações financeiras.

Porto do Rio era rota

Embora a organização atuasse em diversos estados e mantivesse operações internacionais, parte importante da investigação foi conduzida pela Polícia Federal no Rio de Janeiro, a partir de apreensões realizadas no Porto do Rio.

As investigações identificaram ao menos seis carregamentos ligados ao grupo entre 2023 e 2025.

Entre eles estão:

  • junho de 2023: apreensão de 25 kg de cocaína no Porto de Le Havre, na França;
  • março de 2024: apreensão de 1.321 kg de cocaína no Porto do Rio de Janeiro, em carga que seguiria para a Bélgica;
  • maio de 2025: apreensão de 651,2 kg de cocaína no Porto de Hamburgo, na Alemanha;
  • setembro de 2025: apreensão de 450 kg de pasta-base de cocaína no Porto do Rio de Janeiro, em remessa destinada à Eslovênia;
  • outubro de 2025: apreensão de 1,5 tonelada de cocaína em porto na Espanha;
  • novembro de 2025: apreensão de cocaína diluída em carga embarcada no Porto de Navegantes (SC), com destino à Eslovênia.

Segundo a PF, a organização escondia cocaína em cargas de café, cimento e argamassa e também utilizava técnicas de adulteração química para tentar escapar da fiscalização, como a diluição da droga em garrafas de refrigerante.

Relação com MC Poze e MC Ryan

Rodrigo Morgado já estava preso desde outubro de 2025, quando foi alvo da Operação Narco Bet. Posteriormente, ele também passou a responder na Operação Narco Fluxo, investigação que resultou nas prisões dos funkeiros MC Poze do Rodo e MC Ryan SP.

Segundo a PF, Morgado era responsável por estruturar o braço financeiro da organização criminosa, criando empresas de fachada, emitindo notas fiscais sem lastro e utilizando criptomoedas para ocultar e movimentar recursos do tráfico internacional.

As investigações da Commodity apontam que esse mesmo conhecimento técnico também teria sido empregado para dar suporte financeiro ao esquema responsável por enviar toneladas de cocaína para a Europa por meio de contêineres embarcados em portos brasileiros.

Autora/Fonte: Márcia Brasil / g1 Rio de Janeiro



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terça-feira, 16 de junho de 2026

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NARCOTRÁFICO REDUZ USO DE CONTÊINER E AMPLIA BARCOS PESQUEIROS NO ENVIO DE COCAÍNA À EUROPA, DIZ PF


A Polícia Federal tem identificado uma mudança na estratégia do narcotráfico para escoar cocaína do Brasil para a Europa e a África

Houve redução no uso de contêineres em portos, e os criminosos passaram a investir mais em rotas marítimas alternativas, utilizando embarcações pesqueiras, veleiros e semissubmersíveis.

Dados da Polícia Federal, que agregam informações de diferentes instituições, mostram a apreensão de 15,6 toneladas de cocaína em 2025 em portos brasileiros, uma redução de 76,6% em relação ao pico da série em 2019, no total de 66,8 toneladas.

De acordo com autoridades ouvidas pela reportagem, esses dados indicam uma tendência de redução nas apreensões de cocaína em contêineres, tanto nos portos brasileiros quanto em terminais estrangeiros que recebem cargas provenientes do Brasil.

Para investigadores, essa redução não reflete necessariamente uma diminuição do fluxo de cocaína, mas sim uma mudança nas estratégias adotadas pelas organizações criminosas.

A queda é observada tanto nos casos em que a cocaína é escondida em cargas lícitas, como alimentos, madeira, minério ou produtos industrializados, quanto na modalidade conhecida como rip-on/rip-off.

Nesse método, criminosos violam o contêiner após inspeção e lacração, inserem a droga clandestinamente e, posteriormente, retiram a carga ilícita no porto de destino antes que o contêiner seja entregue. Em geral, exportador e importador não têm conhecimento da operação criminosa.

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em agosto do ano passado, quando a Marinha da França apreendeu seis toneladas de cocaína em uma embarcação de bandeira brasileira em águas internacionais, ao largo da costa da África Ocidental.

A ação foi resultado de um trabalho de inteligência que envolveu a Polícia Federal e agências internacionais da França, Reino Unido e Estados Unidos.

Somente em 2025, sete operações conduzidas em conjunto com autoridades estrangeiras resultaram em apreensões de drogas em rotas marítimas com destino a países como Portugal e França.

Segundo autoridades da Polícia Federal e da Receita Federal, não há um único fator capaz de explicar a redução das apreensões de cocaína em contêineres nos portos brasileiros. Entre as principais hipóteses está o fortalecimento das medidas de segurança portuária nos últimos anos.

Nos principais portos do país, praticamente a totalidade das cargas destinadas à exportação passa por inspeção por scanners. Houve ainda ampliação dos sistemas de videomonitoramento nos terminais, maior controle de acesso às áreas portuárias e aperfeiçoamento dos mecanismos de gerenciamento de risco e fiscalização.

A cocaína é a principal droga exportada pelo Brasil para os mercados internacionais. A maconha aparece em operações voltadas ao combate à entrada de entorpecentes no país para consumo interno.

"A cocaína representa cerca de 80% das apreensões de drogas da Receita Federal voltadas para o exterior", disse o auditor-fiscal Maurício Santos Silva, coordenador-geral substituto de Combate ao Contrabando e Descaminho da Receita Federal.

A Polícia Federal também observa o aparente aumento do uso de portos de países como Colômbia, Equador e Peru para o envio de cocaína à Europa. Esses países estão mais próximos das áreas produtoras da droga, o que pode representar vantagens logísticas para as organizações criminosas.

As cargas destinadas ao mercado internacional costumam ser operadas por grandes traficantes, conhecidos como brokers, que controlam a compra, o armazenamento e o transporte da cocaína.

Em território brasileiro, frequentemente recorrem ao apoio logístico de facções criminosas, como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho, em regiões onde exercem influência sobre rotas de transporte, áreas portuárias e estruturas de distribuição.

Nesses locais, as facções costumam fornecer serviços de proteção, armazenamento, transporte e facilitação do escoamento da droga.

Como a Folha mostrou, as duas maiores facções criminosas do Brasil estão presentes nas 27 unidades da federação, mas com hegemonia em 13 estados brasileiros.

O PCC tem hegemonia em Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rondônia, Roraima, São Paulo e Piauí. Já o CV tem domínio sobre seis estados: Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Tocantins e Rio de Janeiro, estado onde surgiu.

Fonte: Raquel Lopes - Brasília – DF -FolhaPress



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sexta-feira, 12 de junho de 2026

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COMO BARCOS REPLETOS DE COCAÍNA LEVARAM PF AO ELO DO PCC COM CHEFÃO DA MÁFIA ITALIANA


A investigação levou à decretação da prisão preventiva de dez suspeitos, entre eles o mafioso sérvio Antun Mrdeza, o "Nikola Boros"

A Operação Narco Sky, da Polícia Federal (PF), aponta ao menos sete missões marítimas usadas pelo crime organizado para enviar grandes carregamentos de cocaína do Brasil para a Europa. As ações foram comandadas, segundo a PF, por um núcleo formado por líderes internacionais do tráfico e operadores brasileiros ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

A investigação levou à decretação da prisão preventiva de dez suspeitos, entre eles o mafioso sérvio Antun Mrdeza, o "Nikola Boros", apontado como integrante da máfia italiana 'Ndrangheta' aliada à facção paulista.

Segundo a investigação, o esquema tinha "elevada envergadura e especialização" e era dividido em três núcleos. O primeiro, baseado fora do país, era responsável pelo financiamento das operações e pelas decisões estratégicas do grupo.

O segundo atuava no comando nacional da logística em território brasileiro, enquanto o terceiro reunia células operacionais encarregadas do preparo, armazenamento e transporte físico da cocaína.

A investigação da Operação Narco Sky teve origem em dados telemáticos compartilhados com a Polícia Federal por meio de cooperação jurídica internacional. As informações, obtidas com auxílio do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, do Ministério da Justiça, foram submetidas a análise pericial da PF em São Paulo.

A partir do cruzamento de mensagens, registros digitais e comunicações criptografadas, os investigadores reconstruíram a estrutura da organização criminosa (ORCRIM), identificaram seus principais integrantes e mapearam as operações usadas para enviar cocaína do Brasil à Europa.

Veja a seguir os detalhes de sete missões marítimas do esquema internacional do tráfico de drogas, alvo da Operação Narco Sky.

Venezia

Em 30 de agosto de 2020, o grupo criminoso conseguiu embarcar cerca de 340 quilos de cocaína no navio Venezia, enquanto a embarcação estava atracada no Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. A operação, considerada de alta complexidade pela PF, foi monitorada em tempo real por integrantes da organização.

As interceptações mostram que Marco Aurélio de Souza, conhecido como "Lelinho", coordenava a logística da ação a partir de São Paulo. Ele recebia atualizações constantes de Pedro Alonso Camacho Fernandez, o "Vince", responsável por informar a chegada da droga às proximidades do porto em um veículo terrestre.

Ambos são alvo de mandados de prisão preventiva expedidos pela 5.ª Vara Federal de Santos.

O momento de carregar o navio com a droga também foi acompanhado de perto pelos líderes do esquema. Segundo a PF, Alejandro Salgado Vega, o "Tigre", participou diretamente da definição do instante exato em que a embarcação de apoio deveria se aproximar do cargueiro, buscando aproveitar pontos cegos ou períodos de menor vigilância no terminal portuário.

"Tigre" também é alvo de um pedido de prisão preventiva expedido pela Justiça.

Para os investigadores, a operação demonstra "alta capacidade da organização criminosa de mobilizar equipes, transportar centenas de quilos de cocaína por via terrestre e executar uma inserção marítima de alta complexidade, revelando elevado grau de profissionalismo e uma cadeia de comando clara e eficiente".

Panorea

A missão do grupo criminoso em março de 2020 tinha como objetivo embarcar 500 quilos de cocaína no navio mercante Panorea para envio ao exterior. A ação exigiu "planejamento detalhado" e mobilização de diferentes operadores ligados à organização criminosa internacional investigada na Operação Narco Sky.

A coordenação da logística em território brasileiro ficou a cargo de "Lelinho", apontado nessa missão pela PF como responsável por articular o apoio em terra, a cooptação de tripulantes estrangeiros e a aproximação de embarcações usadas no transbordo da droga para o navio.

As investigações mostram que a primeira tentativa de inserção da cocaína ocorreu em 28 de março de 2020, quando o cargueiro estava fundeado no Porto de Paranaguá, no Paraná. A operação acabou frustrada por causa do risco de detecção. Dois dias depois, já atracado no Porto de Santos, o grupo conseguiu concluir a contaminação da embarcação.

Apesar de o plano inicial prever o embarque de meia tonelada de cocaína, dificuldades logísticas reduziram a carga efetivamente colocada no navio para cerca de 80 quilos. A PF afirma que os investigados utilizaram bolsas estanques, boias de sustentação, lanternas e dispositivos de geolocalização para ocultar e posicionar a droga, o que demonstraria o "elevado grau de sofisticação da operação".

Las Palmas

Dois meses depois, em maio de 2020, a organização criminosa conseguiu esconder cerca de 14 quilos de cocaína no compartimento do motor de um contêiner refrigerado enviado ao Porto de Las Palmas, na Espanha. A droga foi colocada em uma área estratégica do equipamento para dificultar a detecção por scanners e cães farejadores durante as inspeções alfandegárias, segundo a PF.

A operação, porém, acabou comprometida após Fábio Rodrigues Ulhoa Cintra, conhecido como "Sapão", descobrir que o contêiner havia sido selecionado para fiscalização. Ele alertou imediatamente os demais integrantes do grupo, desencadeando uma tentativa urgente de retirada da cocaína antes da inspeção das autoridades espanholas.

Após receber o aviso, "Lelinho" teria sido acionado para coordenar a remoção da droga já dentro da área controlada do porto espanhol. A tentativa fracassou devido ao forte esquema de segurança e ao controle de acesso no terminal portuário.

As autoridades aduaneiras da Espanha acabaram localizando e apreendendo 14,268 quilos de cocaína no contêiner. Para a PF, o episódio demonstrou a capacidade da organização de operar de forma transnacional, com monitoramento remoto de cargas ilícitas em portos estrangeiros, uso de logística especializada e comunicações criptografadas para acompanhar as operações em tempo real.

Mobydick

Uma das principais operações do grupo ocorreu em julho de 2020 com o uso do veleiro "Mobydick" para transportar cocaína do litoral paulista até Las Palmas, na Espanha. A embarcação pertencia ao mafioso sérvio Antun Mrdeza, conhecido como "Nikola Boros" ou "John Gotti", apontado como um dos líderes da organização criminosa investigada.

Preso desde maio de 2025 na Venezuela, Mrdeza não atua apenas como financiador do tráfico internacional, segundo a PF. Os investigadores afirmam que ele comanda remessas de cocaína para a Europa, supervisiona operações, cobra resultados e investe recursos próprios para ampliar os lucros da organização criminosa.

A Polícia Federal afirma que relatórios de inteligência e informações obtidas com fontes internacionais identificam o mafioso sérvio como integrante da chamada "New Drug Trafficking Board", descrita por autoridades colombianas como um novo centro global de comando do narcotráfico. A estrutura seria usada para coordenar alguns dos maiores carregamentos de cocaína do mundo e já é alvo de investigações em ao menos sete países.

O veleiro "Mobydick" era comandado pelo capitão sueco Axel Bertil Eriksson, que atravessou o oceano até o Brasil e chegou ao Recife em março daquele ano. Depois, seguiu para Ilhabela, no litoral de São Paulo, onde a embarcação passou pelos preparativos finais antes da saída rumo à Europa.

As investigações apontam que a cocaína destinada ao "Mobydick" estava ligada a uma carga de 490,8 quilos da droga apreendida pelas autoridades brasileiras em uma aeronave PT-RAS, em Fernandópolis, no interior paulista.

Para a PF, a conexão revelou uma cadeia logística sofisticada, na qual a cocaína era transportada por via aérea até pontos de armazenamento no interior do País e depois levada ao litoral para exportação marítima. A carga, segundo a PF, pertencia ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

A apreensão da droga e problemas técnicos no veleiro atrasaram a partida da embarcação e provocaram atritos entre integrantes brasileiros da organização e o capitão estrangeiro. Após reorganizar a operação e recompor a carga ilícita, o grupo conseguiu concluir o embarque da cocaína e iniciar a travessia em 30 de julho de 2020.

Segundo a PF, a operação no Brasil contou com uma ampla estrutura de apoio em terra coordenada por "Lelinho". Também integravam o núcleo logístico "Sapão", Walter Pires Junior, conhecido como "Waltinho", e Klaus de Castro Rios Motta e Silva, responsáveis por fornecer suporte operacional para a preparação e saída da embarcação rumo à Europa.

Praia do Góes

Uma apreensão realizada na Praia do Góes, no Guarujá, em julho de 2020, atingiu diretamente a estrutura de armazenamento da organização criminosa no Brasil. Segundo a PF a operação revelou um imóvel usado como entreposto da quadrilha e resultou na apreensão de 321 quilos de pasta base de cocaína.

As investigações apontam que a droga estava sob responsabilidade direta de "Lelinho", descrito pela PF como responsável pela segurança e pela gestão do estoque de entorpecentes no País.

A carga pertenceria a diferentes integrantes da cúpula do esquema, entre eles o mafioso sérvio Antun Mrdeza, e Alejandro Salgado Vega, o "Tigre", que teriam cobrado explicações de "Lelinho" após a perda da droga.

A PF afirma que a primeira ação policial não encontrou todo o entorpecente porque a cocaína estava dividida entre dois imóveis distintos. Ao perceber que parte da carga ainda não havia sido localizada, "Lelinho" teria reagido rapidamente para evitar novas perdas.

Segundo os investigadores, ele acionou imediatamente seus homens de confiança, "Waltinho", e Klaus de Castro Rios Motta e Silva, ordenando a retirada e ocultação de 219 tijolos de cocaína que estavam em deslocamento para São Sebastião, no litoral paulista. A operação de retirada foi concluída com sucesso, episódio que, para a PF, demonstrou a capacidade de reação da organização criminosa e a autoridade exercida por "Lelinho" dentro do grupo.

Adrienne

Segundo a Polícia Federal, a organização criminosa tentou resgatar cerca de 175 quilos de cocaína transportados pelo navio Adrienne na região da Calábria, na Itália, em uma operação internacional monitorada em tempo real pelos integrantes do grupo. A estratégia consistia em esconder a droga em um compartimento selado do cargueiro ainda no Brasil para, depois, recuperar a carga ilícita em alto-mar durante a rota europeia da embarcação.

As investigações apontam que Pedro Alonso Camacho Fernandez, o "Vince", era o principal responsável pela coordenação da operação no território europeu. Segundo a PF, ele mantinha contato direto com tripulantes do navio e com as equipes encarregadas do resgate da droga, transmitindo coordenadas de GPS e instruções operacionais detalhadas para os integrantes posicionados no oceano.

A apuração também identificou a criação de um grupo específico na plataforma criptografada SKY ECC voltado exclusivamente à coordenação da operação de resgate. A ação era acompanhada de perto pelos líderes Alejandro Salgado Vega, o "Tigre", e o mafioso sérvio Antun Mrdeza, apontados como coproprietários da carga de cocaína.

Apesar da estrutura montada pela organização criminosa, o resgate fracassou. As autoridades italianas conseguiram localizar e apreender 216,68 quilos de cocaína a bordo do navio Adrienne quando a embarcação estava atracada no Porto de Ancona, na Itália.

Barbara

O chamado "Evento Barbara" repetiu o mesmo modelo operacional usado pela organização criminosa em outras remessas internacionais de cocaína. O plano previa o embarque de cerca de 300 quilos da droga no navio Barbara e posterior resgate da carga em alto-mar durante a rota europeia da embarcação.

As investigações apontam que a inserção da cocaína no cargueiro foi coordenada por Pedro Alonso Camacho Fernandez, o "Vince", em parceria com Antônio Greg Ribeiro Pinheiro, conhecido como "Fisherman". Já a etapa de recuperação da droga no exterior teria sido supervisionada novamente por Alejandro Salgado Vega, o "Tigre".

Segundo a PF, a missão acabou afetada após a apreensão de cocaína no "Evento Adrienne", ocorrido anteriormente no Porto de Ancona, na Itália. A ação das autoridades italianas teria provocado pânico entre os tripulantes do navio Barbara, levando o capitão da embarcação a ordenar que as bolsas contendo a droga fossem lançadas ao mar antes da aproximação da equipe encarregada do resgate.

Após o descarte da carga, os integrantes da organização tentaram localizar a cocaína no oceano, mas sem sucesso. De acordo com a PF, "Vince" chegou a usar um cartão de crédito em seu próprio nome para ativar o sistema de GPS instalado nas bolsas usadas para rastrear a droga, porém o equipamento não foi encontrado.

Dias depois, em outubro de 2020, autoridades europeias registraram a descoberta de 300 pacotes de cocaína encontrados por banhistas na praia de Borssele, na província da Zelândia, na Holanda. A PF aponta que a carga tinha ligação direta com a operação frustrada envolvendo o navio Barbara.

Fonte: Estadão Conteúdo


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