Para manter o emprego
no Porto de Santos, o guarda portuário tinha que se virar como podia
Até o final da década de 1980, os
guardas trabalhavam em condições precárias e sob pressão constante. A grande
maioria dos postos não tinha água potável. Alguns não tinham sanitário, nem
cadeira para sentar — porque simplesmente não era permitido sentar — e, pior
ainda, naquela época os guardas não podiam se sindicalizar.
Um dos postos mais puxados era a
portaria do Terminal de Fertilizantes — o famoso Tefer — na Margem Esquerda do
porto, em Vicente de Carvalho, no Guarujá. Era uma guarita de madeira elevada,
com as janelas na altura da cabine dos caminhões. Dois guardas, quando tinha
efetivo — muitas vezes era só um mesmo — controlando entrada e saída. Sem água,
banheiro longe… e pressão o tempo todo.
O trabalho exigia atenção total. Tudo
era anotado na mão: dados do caminhão, do motorista e da carga. Alguns produtos
eram controlados pelo Exército. Qualquer erro dava problema — e punição vinha
na certa.
Na maioria das vezes, formava fila de
caminhão pra carregar o produto que vinha dos navios. Era serviço direto, sem
parar. Num turno de seis horas, o guarda tinha direito a 15 minutos de lanche —
isso quando alguém aparecia pra render. E não tinha lugar pra comer. A cantina
ficava longe.
Raro era o dia — ou a madrugada — em
que dava uma folga.
Numa dessas madrugadas, depois de horas
puxadas, a operação parou. Jairo, conhecido como “Terror” — apelido que,
segundo diziam, vinha da voz grossa e meio assustadora, tipo personagem de
filme do Hitchcock — fechou o portão.
Sem movimento nenhum, ele pegou um
papelão, estendeu no chão da guarita e resolveu tirar um cochilo.
O inspetor da área era o Martins Barros,
conhecido como “Perdido” porque quando foi transferido para a Guarda Portuária não conhecia nada do trabalho no cais. Os
inspetores daquela época vinham da área administrativa, não eram guardas de
carreira, e costumavam impor uma disciplina mais dura.
Quando soube que a operação tinha
parado no Tefer, “Perdido” falou pro motorista:
— Vamos lá. Hoje eu pego aquele
“Terror” no pulo.
Chegando perto do posto, como não viu o
guarda, mandou parar a viatura um pouco antes. Desceu em silêncio, subiu a
escada na ponta dos pés e abriu a porta devagar.
E lá estava o Jairo… esticado no chão,
dormindo de bruços.
Na hora, abriu um sorriso daqueles.
Tinha pegado no flagra.
E soltou, todo animado:
— Hoje você não escapa! Me passa a sua
parte diária que eu vou te comunicar!
A “parte diária” era o documento onde o
guarda registrava tudo do posto — e uma canetada ali era suspensão na certa.
Mas Jairo era ligeiro. Sergipano,
acostumado a se virar na vida, pensou rápido.
Assim que ouviu a voz do inspetor,
puxou o documento do bolso, se virou, estendeu a mão e, com a voz fraca,
mandou:
— Tá aqui minha parte diária… pode
escrever o que quiser… mas antes chama uma ambulância que eu tô passando mal
faz tempo… e não aparece ninguém pra me socorrer…
“Perdido” até desconfiou… mas não quis
arriscar.
Desceu da guarita, foi até a viatura e
chamou socorro pelo rádio.
Poucos minutos depois, chegou a
ambulância.
Jairo entrou no personagem: mão no
peito, respiração ofegante, corpo tremendo… uma atuação de respeito.
Chegando ao pronto-socorro, como era
caso de emergência passou na frente de todo mundo.
O médico pediu eletrocardiograma e
exames de sangue. Tudo com o inspetor acompanhando de perto.
Quando saiu o resultado, o médico
falou:
— Sr. Jairo, o senhor está bem agora.
Os exames não mostraram nada. Pode ter sido um princípio de infarto, uma crise
de ansiedade… ou até dor na coluna. Vou te dar dez dias de licença e encaminhar
pro cardiologista.
Na hora, incrédulo, o “Perdido” ficou
com aquela cara de quem engoliu seco, sem ter o que fazer.
Mandou o motorista levar o guarda até
em casa.
Resultado final: Jairo “Terror” escapou
da punição, ganhou carona e ainda levou dez dias de folga.
Se tivesse um diretor de cinema ali, ia
dizer que aquilo não foi cena de terror, não… foi atuação digna de Oscar.
Moral
da história: Nunca
subestime a esperteza de quem já aprendeu a sobreviver na marra.
Texto: Carlos Carvalhal
Ilustração: Gerada por IA —
Inteligência Artificial.
* Esta é uma história memorialista, de
ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são fictícios. Os locais e ambientes retratam as condições da época. Dizem
que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque quem conta um conto sempre
aumenta um ponto.
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