Arquivos recuperados em
investigação sobre tráfico de drogas abriram caminho para operação de combate à
lavagem de dinheiro
A prisão do cantor
MC Ryan SP em uma festa à beira-mar no litoral paulista no dia 15 deste mês foi
o capítulo mais recente de uma investigação que começou muito antes, e bem
longe dos palcos. Tudo tem origem num aparelho de celular apreendido pela
Polícia Federal durante uma ação contra o tráfico marítimo de drogas. O dono do
dispositivo era Rodrigo de Paula Morgado, empresário do setor contábil cuja
trajetória, reconstruída pelos investigadores, conecta veleiros carregados de
cocaína no Atlântico a casas de apostas eletrônicas, cripto ativos e uma
constelação de empresas de fachada.
A megaoperação, que
resultou na detenção de cantores do funk, influenciadores com milhões de
seguidores e produtores de conteúdo, é fruto direto das informações extraídas
da nuvem pessoal de Morgado, um acervo digital que as autoridades descrevem como
a "caixa-preta" do esquema.
O início dessa teia
criminosa remonta a 2023, quando a Marinha dos Estados Unidos interceptou o
veleiro Lobo VI em alto-mar, entre o arquipélago de Cabo Verde e as Ilhas
Canárias. A bordo estavam mais de quatro toneladas de cocaína, que deram origem
à Operação Narco Vela, investigação que mirou uma organização dedicada ao
tráfico de entorpecentes para a África e a Europa, valendo-se de satélites,
embarcações de alto padrão e rotas marítimas cuidadosamente planejadas.
As apurações
identificaram membros do Primeiro Comando da Capital (PCC) entre os envolvidos,
entre eles Levi Adriani Felício, o "Mais Velho", e seu parente
Rodrigo Felício, o "Tico", ambos já presos por crimes ligados ao
tráfico naval. Além deles, a investigação traria à tona um personagem até então
menos exposto: Rodrigo de Paula Morgado.
Durante a Narco
Vela, os agentes apreenderam o celular de Morgado. Ao vasculhar o equipamento,
descobriram que ele havia atuado como contador das empresas Saito Construtora
Ltda. e Caetano da Silva Construtora EIRELI, ambas identificadas como
partícipes na aquisição do veleiro Lobo IV, outra embarcação confiscada com
mais de três toneladas de cocaína. A ligação do empresário com o universo do
narcotráfico marítimo estava estabelecida.
A Narco Bet e o primeiro ciclo de prisões
Com base nas
descobertas iniciais, a Polícia Federal avançou para a Operação Narco Bet,
deflagrada em outubro de 2025. O alvo central continuava sendo Morgado, agora
descrito pelas autoridades como um possível "operador
logístico-financeiro" de um esquema transnacional de lavagem de capitais.
O juiz federal
Roberto Lemos dos Santos Filho, ao autorizar o mandado de prisão preventiva
contra o empresário, destacou haver provas suficientes, "ao menos em
tese", de seu envolvimento em atos ilícitos antecedentes à lavagem de
dinheiro, com clara relação ao tráfico internacional de drogas. O magistrado
sublinhou os indícios de "união de esforços" para dissimular a origem
criminosa do capital.
As investigações
revelaram que Morgado havia aberto dezenas de empresas em parceria com jovens
moradores de comunidades de difícil acesso, sem endereço verificável, cuja
documentação apresentava suspeitas de fraude. Todas as companhias tinham como
sede formal o mesmo endereço de coworking, do qual Morgado era o único sócio. O
esquema detectado na Narco Bet movimentou, segundo os investigadores, R$ 313
milhões ao longo de cinco anos, além de operações de cripto ativos que se
aproximaram de R$ 100 milhões.
A nuvem que mudou as investigações
Foi durante a
Operação Narco Bet que a Polícia Federal obteve autorização judicial para
acessar o serviço de armazenamento em nuvem vinculado a Rodrigo Morgado. A
decisão abriu uma janela para a vida digital do empresário, e o que os
investigadores encontraram ali redirecionou completamente os rumos das
apurações.
Ao cruzar os arquivos
e conversas armazenados na nuvem de Morgado com os Relatórios de Inteligência
Financeira (RIFs) emitidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras
(Coaf), o núcleo de inteligência da PF identificou algo que até então não
estava no radar: uma organização criminosa autônoma, completamente independente
daquela que era investigada nas operações anteriores. Tratava-se de uma
estrutura própria, articulada para captar, custodiar e redistribuir recursos
oriundos de apostas ilegais, com MC Ryan SP no centro do esquema.
As conversas
extraídas do celular do empresário foram determinantes não apenas para mapear a
rede de laranjas e operadores envolvidos, mas também para demonstrar que os
crimes seguiam ocorrendo de forma ativa. Os registros indicavam movimentações
financeiras ilícitas ao longo de todo o segundo semestre de 2025, incluindo o
mês de dezembro. Essa foi a evidência de que a engrenagem estava em plena
atividade enquanto as investigações avançavam.
A conexão entre o
tráfico de drogas exposto na Narco Vela e o esquema financeiro desarticulado
agora passa diretamente pelas plataformas de apostas, as chamadas bets. Segundo
as autoridades, os investigados utilizavam esses serviços para transformar em
dinheiro aparentemente lícito os recursos gerados pelo narcotráfico
internacional.
Os dados extraídos
da nuvem de Morgado permitiram às autoridades revelar os nomes de diversas
pessoas físicas e empresas de fachada usadas para operacionalizar o ciclo. A
empreitada criminosa começava com a entrada dos valores ilícitos, sua custódia
e posterior redistribuição em formas distintas, com cripto e remessas
internacionais complementando o mecanismo. Tudo era feito para dificultar o
rastreamento e disfarçar a origem do capital.
O papel de Morgado na nova fase
Com a deflagração da
operação neste mês, Rodrigo de Paula Morgado passou de investigado a um dos
pivôs documentais da maior fase da investigação. A Justiça Federal decretou sua
prisão temporária pelo prazo de 30 dias, além de ter determinado o bloqueio e sequestro
de bens, valores, cripto ativos e veículos.
O montante global
bloqueado contra os integrantes do grupo chegou a R$ 1,63 bilhão — valor
correspondente ao fluxo financeiro indevido identificado pelos investigadores
ao longo de toda a apuração. Morgado figura entre os alvos das medidas
determinadas pelo juiz responsável pelo caso.
O material obtido da
conta em nuvem do empresário foi tão central que, nesta nova etapa, o
magistrado chegou a dispensar as grandes empresas de tecnologia de fornecer
dados telemáticos adicionais. A justificativa é direta: as análises das contas
titularizadas por Rodrigo de Paula Morgado já foram completamente esgotadas
pela Polícia Federal e forneceram toda a base necessária para sustentar a fase
atual da investigação.
A operação que
alcançou artistas e influenciadores ampliou consideravelmente o espectro de
investigados. MC Ryan SP foi preso durante uma festa na Riviera de São
Lourenço, em Bertioga, no litoral paulista, onde celebrava com convidados
enquanto os agentes se mobilizavam para cumprir os mandados. MC Poze do Rodo,
outro nome de destaque do funk nacional, também acabou detido.
No campo dos
influenciadores digitais, a ação alcançou Raphael Sousa Oliveira — criador da
página Choquei, um dos perfis de entretenimento mais populares do Brasil — e
Chrys Dias, com quase 15 milhões de seguidores nas redes sociais. Outros
produtores de conteúdo integram a lista de presos.
Autor/Fonte: Filipe Vidon / O Globo
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