Pouca gente imagina, mas o Porto de Santos é habitado por
uma grande diversidade de animais: domésticos, de criação,
urbanos e até selvagens.
Por estar
situado em uma região de estuário, onde as águas dos rios se encontram com as
do mar, o Porto de Santos está inserido em um ambiente que abriga uma rica
diversidade de vida animal. Por ali, é possível avistar tartarugas marinhas,
arraias, golfinhos e até baleias, entre outras espécies aquáticas.
A fauna
silvestre também encontra espaço na região portuária. Capivaras circulam pelas
áreas próximas aos canais, enquanto jacarés e ratos-do-banhado encontram abrigo
nas margens e áreas alagadas. Assim, mesmo em meio à intensa atividade
portuária, esses animais encontram no estuário condições para sobreviver.
Antigamente, as
regras e restrições não eram tão rigorosas quanto as atuais, e era comum
encontrar funcionários que tinham um cachorro como mascote. Em menor número,
também havia gatos e até passarinhos.
Uma das mais curiosas
dessa época, era a de um chefe que mandava o guarda levar seu passarinho para
passear. Dizia que o animal ficava preso na sala o dia inteiro. E lá ia o
guarda, com a gaiola na mão, dar uma volta no quarteirão com o bichinho.
Já os animais
considerados pragas urbanas, como ratos e pombos, continuam presentes no porto
até hoje, apesar dos programas de controle.
Havia ainda uma
categoria de animais que dependia diretamente da iniciativa dos próprios
funcionários: os criados no local. Em alguns pontos do porto, existiam pequenas
criações de galinhas, patos, porcos e outros animais.
Na área da
Presidência, por exemplo, o chefe da manutenção elétrica criava coelhos nos
fundos da instalação.
Certo dia, o
guarda Bentes, que por ser filho de um lusitano — daqueles que se encaixam no
tradicional estereótipo do dono de padaria — muitos chamavam apenas de
português, descobriu a criação e arquitetou um plano com seu parceiro Zé
Pangaré. Como havia muitos funcionários chamados José, era comum recorrer a
apelidos para diferenciá-los. A origem do apelido, porém, nunca descobri.
Sempre que chegavam ao último dia do
turno da madrugada, eles aproveitavam a oportunidade para pegar um coelho. Bentes levava o bichinho para casa, onde sua
mãe o preparava. Depois, trazia a refeição para o trabalho, para
comerem durante o turno das 18h à meia-noite. Na hora do
rango, sempre compareciam ao posto o rondante e o inspetor da área.
Depois de algumas
noitadas regadas a banquetes à base de carne de coelho, enquanto degustavam mais um guisado, Bentes resolveu perguntar a todos:
— Tá gostoso?
— Quando a gente
pegou, parecia ser maior. Depois que cozinhou, diminuiu de tamanho, mas tá
muito gostoso. A sua mãe cozinha muito bem.
Para a surpresa de
todos, ele abriu a mochila, tirou
de dentro a pele de um gato e disse:
— Hoje vocês comeram
gato, porque o coelho nós comemos em casa.
Dito isso, saiu
correndo do local.
Literalmente,
comeram gato por lebre.
Teve gente se
engasgando, gente vomitando e todo mundo ficou puto da vida. Como o Bentes
gostava de aprontar com os colegas, até hoje ninguém sabe se aquilo foi mais
uma de suas pegadinhas ou se ele realmente tinha esfolado um gato para preparar
o quitute.
Ele também
contava que o pai havia morrido durante o banho, vítima de um cozimento do
cérebro. Não se sabe o homem morreu mesmo desse jeito
ou se essa era mais uma das suas costumeiras bravatas.
Não demorou
muito para os eletricistas perceberem que os coelhos estavam desaparecendo.
Desconfiados, iam até o posto da Rua João Guerra e perguntavam:
— Seu guarda, você
não viu algum coelho perdido por aí? Acho que eles estão fugindo do nosso
viveiro.
Com a maior cara
de pau, Bentes respondia:
— Não vi, não. Mas pode
deixar: se aparecer algum por aqui, eu prendo e entrego pra vocês.
As artimanhas de
Bentes eram tantas que, no fim das contas, até parece que lhe renderam uma
promoção. Ele passou a rondante e, tempos depois, foi aprovado no concurso da Polícia
Civil e deixou a Guarda Portuária.
Certa vez, quando
fui apresentar uma ocorrência no 3º Distrito Policial, lá estava ele, agora
como chefe dos investigadores.
E foi aí que eu
pensei: quem diria que o
homem que fazia os coelhos desaparecerem acabaria trabalhando para investigar
desaparecimentos?
Moral da História
Quem conhece bem
as artimanhas do ofício pode acabar se tornando especialista em desvendá-las.
Texto: Carlos
Carvalhal
Ilustração:
Gerada por IA — Inteligência Artificial.
* Esta é uma
história memorialista, de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos
envolvidos são fictícios. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque
quem conta um conto sempre aumenta um ponto.
* Artigo
publicado na Revista Literária Barbante - Volume XIV – Nº 191 – Página 10 - 18 de outubro de 2026.
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