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NO PODCAST PORTO&GENTE CONTEI UM POUCO DA MINHA HISTÓRIA NO PORTO DE SANTOS

Uma trajetória de mais de 30 anos, com atuação na Receita Federal, na Guarda Portuária, nas áreas sindical, cooperativista, beneficente e em...

sábado, 28 de fevereiro de 2026

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A DANÇA DOS CAMINHONEIROS NO RITMO DO CAPBOX


No Porto de Santos acontece de tudo, até espetáculo improvisado de dança

Antigamente, os postos fiscais — posteriormente chamados de gates (portões) e atualmente de posto de fiscalização portuária (PFP) — estavam longe de ter a estrutura e a tecnologia atuais: havia apenas um acesso de pedestres, com passagem por dentro do posto, e uma entrada de veículos com portões pesados de ferro, difíceis de abrir e fechar.

A identificação era feita por amostragem; o recurso da época era o “cara-crachá”, baseado no feeling, na experiência e na observação da roupa, do jeito de andar e de se comportar. Era gente demais para conferir, e o movimento no Porto era bem mais intenso do que é hoje.

Não tinha como relaxar. Quando havia dois guardas no posto — o que nem sempre acontecia — ficava um no acesso de pedestres e outro no de veículos.

Certo dia estava acontecendo uma operação de “vira” — descarga do navio direto para o caminhão, que levava a barrilha para um armazém e voltava para carregar de novo, num vai-e-vem incessante.

Quando os guardas assumiram o posto, por volta das 5h30, havia duas filas: uma de membros da Associação dos Caminhoneiros e outra dos avulsos que faziam o vira. Os associados tinham virado a noite trabalhando, e os avulsos chegaram pela manhã querendo passar na frente. E ali estava armado o cenário para a confusão.

O guarda portuário Santana — apelidado de “Idi Amin” — foi ver o que estava acontecendo e acabou cercado pelos caminhoneiros, que começaram a culpá-lo por ter deixado alguém furar a fila. Até que um deles falou:

— Esses dois guardas, o gordinho e o magrinho, é que causaram essa confusão!

Santana era falante, alegre, comunicativo, mas não gostava que ninguém encostasse nele. Quando os caminhoneiros começaram a empurrá-lo, praticamente chamando para a briga, ele aceitou o convite. Depois de levar um tapa no rosto, deu um passo para trás e mandou um soco no queixo de um deles, deixando o homem estendido no chão como se tivessem puxado o fio da tomada.

Ribeiro, que estava em frente ao portão do PF-08, viu a aglomeração em volta do parceiro e partiu para cima. Saiu correndo e entrou na roda com as armas que sabia usar: uma “estrela”, um “rabo de arraia”, depois uma rasteira e até uma cabeçada. Enquanto isso, Santana abriu o arsenal: cruzado de direita, jab e o que mais viesse. O tumulto virou praticamente uma dança, um espetáculo coreografado, no ritmo do capbox — mistura de capoeira com boxe.

No meio do tumulto, passou pelo local a ronda dos agentes — guardas portuários à paisana, em viaturas descaracterizadas — que chamaram reforços e entraram também na dança.

Quando as viaturas de apoio chegaram, havia vários caminhoneiros com escoriações. Uns correram, outros fizeram cara de paisagem e alguns socorreram os feridos, levando os companheiros para a Santa Casa de Santos.

Os dois caminhoneiros que iniciaram o tumulto foram detidos e encaminhados para a 2ª Subsede, localizada em um armazém externo ao lado do acesso à Rua Luiza Macuco — área que depois seria demolida para a construção da Avenida Perimetral.

Na instalação da Guarda, os detidos passaram por um tratamento de “harmonização facial”, antes de serem apresentados no 4º Distrito Policial de Santos.  Quando chegaram lá, já havia vários caminhoneiros prestando queixa contra os guardas por agressão.

Eles gritaram:

— Foram eles! O gordinho e o magrinho!

O delegado respondeu na hora:

— Vocês não têm vergonha de vir aqui dizer que, estando em quinze, apanharam desses dois?

O que os caminhoneiros e o delegado não sabiam é que o gordinho, Santana (Idi Amin) — apelido por causa da semelhança com o ditador que foi presidente de Uganda entre 1971 e 1979 — era treinador de boxe no Clube de Regatas Tumiaru, em São Vicente. Dizem que foi até sparring de Adilson Maguila. Já o magrinho era Ribeiro, nascido e criado no Morro da Nova Cintra, conhecido como “Espigão”, apelido recebido pelo Mestre Bandeira, pioneiro da capoeira na Baixada Santista desde 1969.

No dia seguinte, 3 de agosto de 1988, o assunto virou manchete do jornal local: “Desentendimento no cais causa tumulto”.

Inconformado com a versão do boletim de ocorrência, que apontava os motoristas como causadores do tumulto, o Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos fez um protesto em frente ao fórum da cidade. Alegaram que os motoristas foram algemados e espancados. O juiz determinou a abertura de inquérito policial para apurar a denúncia.

Com a abertura do processo, os guardas procuraram o comandante para pedir que a CODESP – Companhia Docas do Estado de São Paulo designasse um advogado. Ao saber da presença deles, o comandante disse à secretária:

— Encaminha esses arruaceiros para falarem com o tenente Navarro.

Navarro era chefe do setor de policiamento, ex-PM — naquela época, muitos cargos de chefia na Guarita ainda eram ocupados por militares, herança dos tempos da ditadura.

Ao serem recebidos, ouviram:

— Não posso fazer nada. Nem na polícia existe isso. Vocês vão ter que se virar.

Por sorte, três meses depois, os guardas passaram a ter direito à sindicalização. Procuraram então o Benedito, presidente do sindicato dos portuários que, sabendo da situação, designou um advogado para defendê-los.

O processo correu na justiça por quase cinco anos, até que os guardas foram inocentados. Muitas testemunhas confirmaram que eram dois contra quinze caminhoneiros.

Já os caminhoneiros não conseguiram explicar direito o que tinha acontecido. Os depoimentos foram contraditórios. Não souberam dizer onde teriam sido agredidos, quem bateu em quem, nem informar corretamente o endereço da 2ª Subsede, no armazém XXIX, onde disseram ter recebido o tal “tratamento facial”.

Moral da história: antes de chamar alguém para dançar, é bom saber quem são os dançarinos e qual é o ritmo da música.

Texto: Carlos Carvalhal

Ilustração: Gerada por IA — Inteligência Artificial

 

* Esta é uma história memorialista, de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são fictícios. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque quem conta um conto sempre aumenta um ponto.

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