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quinta-feira, 2 de abril de 2026

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CONTRABANDO E RISCO ESCANCARAM FALHA FEDERAL E ABANDONO EM VILA DO CONDE


Com acesso precário, fiscalização frouxa e tragédias, maior porto do Pará opera sob denúncias de irregularidades e ausência de gestão efetiva

A rotina no complexo portuário de Vila do Conde, em Barcarena, escancara um problema que vai além da infraestrutura: trata-se de um vácuo de gestão federal em área estratégica, com reflexos diretos na segurança pública e na economia.

Sob responsabilidade da Companhia Docas do Pará, a CDP, vinculada à União, o maior porto do Estado convive com denúncias recorrentes de circulação de cargas suspeitas, incluindo minério de origem irregular e drogas, em meio a um cenário de fiscalização considerada insuficiente.

Na prática, o que se vê é um fluxo intenso de carretas cruzando o sistema viário portuário - muitas vezes sem o controle rigoroso esperado para uma área de jurisdição federal, o que limita a atuação direta das forças estaduais de segurança.

Rota livre

A condição de porto federal cria uma zona cinzenta: enquanto a responsabilidade de fiscalização é da União, o Estado assiste, com restrições operacionais, à movimentação de cargas potencialmente ilícitas. Fontes ouvidas pela coluna apontam que a fragilidade no controle de acesso e circulação acaba transformando o complexo em rota sensível para práticas ilegais, com baixa capacidade de resposta imediata por parte das autoridades locais.

Estradas do caos

O problema não se limita ao controle. O acesso ao porto é outro gargalo.

A chamada Via Alimentadora, de responsabilidade direta da CDP, apresenta condições precárias de trafegabilidade. Buracos, desgaste do pavimento e ausência de manutenção adequada dificultam o fluxo diário de caminhões e elevam o risco de acidentes.

A via funciona como ligação direta entre a rodovia PA-481 (Transalumínio) e as áreas operacionais do porto - ou seja, é um eixo vital para o escoamento de cargas. Em contraste, a Transalumínio, utilizada inclusive por operações privadas, recebe manutenção regular, o que escancara a diferença de gestão entre o público e o privado dentro do mesmo corredor logístico.

Passivo de dez anos

O histórico de Vila do Conde ajuda a entender o cenário atual. Há dez anos, o naufrágio do navio “Haidar” marcou o porto com um dos episódios mais emblemáticos da região: cerca de 5 mil bois mortos e centenas de toneladas de óleo lançados ao rio. A embarcação segue submersa até hoje.

Desde então, tentativas frustradas de remoção consumiram milhões de reais, sem solução definitiva. Parte da estrutura portuária foi interditada, e áreas próximas entraram em processo de degradação.

Relatos indicam que berços de atracação apresentam desgaste avançado, enquanto equipamentos como cabeços operam no limite, elevando o risco de um novo acidente de grandes proporções.

Operação e discurso

Ao longo dos anos desde o naufrágio, a CDP sustenta que o porto segue operando normalmente e que o naufrágio não compromete as atividades. A companhia afirma ainda que o navio não representa risco ambiental ativo e que o tema da remoção permanece em análise técnica e jurídica.

Na ponta, no entanto, o que se observa é um ambiente de estrutura fragilizada, acesso comprometido e controle questionado. O caso de Vila do Conde reúne, no mesmo ponto, três fatores críticos: infraestrutura deteriorada, fragilidade na fiscalização e circulação de cargas sensíveis em área federal. A combinação transforma o porto em um ponto de atenção não apenas logístico, mas também de segurança institucional.

No Pará, o problema dos portos deixou de ser apenas administrativo.

Hoje, é questão de controle. Se o controle falha, sobretudo em território federal, o que passa não é só carga; é o risco.

Autor/Fonte: Olavo Dutra/Portal do Olavo Dutra



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