Italiano Vincenzo Pasquino detalhou rotas e esquema de
tráfico internacional; Justiça italiana considerou depoimentos confiáveis
O italiano Vincenzo
Pasquino, preso na Penitenciária Federal de Brasília, prestou o primeiro de uma
série de depoimentos a procuradores antimáfia da Itália em 28 de novembro de
2023. A colaboração, iniciada ainda no Brasil, se tornou uma das mais relevantes
delações já produzidas sobre a parceria entre o Primeiro Comando da Capital
(PCC) e a máfia da Calábria, ’Ndrangheta, no tráfico de drogas internacional.
As declarações de
Pasquino serviram de base para a Operação Samba, deflagrada simultaneamente no
Brasil e na Itália em dezembro de 2024, contra um consórcio criminoso acusado
de enviar toneladas de cocaína da América do Sul para a Europa.
Segundo
investigadores italianos, foi a primeira vez que um integrante da máfia
descreveu em detalhes a estrutura operacional construída pelo PCC para atuar no
tráfico globalizado.
“Decidi tomar esse
caminho da colaboração com a Justiça porque as pessoas nas quais eu confiava me
abandonaram”, afirmou Pasquino aos procuradores italianos. As informações foram
divulgadas pelo jornal O Estado de S. Paulo.
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| Apreensão de 815 quilos de cocaína no Porto de Santos - Foto: Divulgação Receita Federal |
Os depoimentos
ocorreram ao longo de meses, inclusive depois da extradição do mafioso para a
Itália, em março de 2024. Um dos relatos mais recentes foi prestado à 16.ª Vara
Criminal Federal de João Pessoa (PB), no âmbito da Operação Conexão Paraíba,
braço brasileiro da ofensiva antimáfia.
Ao analisar o
conteúdo das declarações, a juíza italiana Francesca Rosseti afirmou que
“subsistem em seu relato a confiabilidade intrínseca e a credibilidade
subjetiva do declarante”. Diante da colaboração, Pasquino foi condenado a dez
anos de prisão — uma das penas mais baixas entre os investigados da Operação
Samba.
Segundo o mafioso, o
elo entre PCC e ’Ndrangheta começou a ser consolidado em 2018, quando
integrantes da família Nirta, da cidade calabresa de San Luca, decidiram
ampliar suas operações na América do Sul. Os mafiosos Sebastiano Giampaolo,
Ivano Piperissa e Giuseppe Vitale foram enviados ao Brasil para negociar
diretamente com o PCC.
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| Operação Conexão Paraíba - Foto: Divulgação PF |
Pasquino afirmou ter
sido o responsável por organizar a reunião em São Paulo que selou o acordo
entre as organizações criminosas. “Integrantes de várias famílias me pediam
para trabalhar com eles. Era eu quem mantinha contato com o PCC”, declarou.
O pacto previa que
PCC e ’Ndrangheta dividiriam igualmente os custos de cada carregamento de
cocaína destinado à Itália. Cabia a Pasquino transportar os recursos
financeiros da Europa para o Brasil.
De acordo com o
delator, o PCC vendia a cocaína aos italianos por € 5 mil o quilo. Com despesas
logísticas e propinas nos portos, o valor subia para € 7,5 mil antes da
distribuição na Europa. “A parte do PCC na venda na Itália tinha o preço mínimo
acordado de € 23 mil a € 25 mil”, relatou.
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| Mafiosos Rocco Morabito e Vicenzo Pasquino foram presos em João Pessoa_PB - Foto:Divulgação PF |
A droga era
desembarcada principalmente no Porto de Gioia Tauro, na Calábria, considerado o
maior terminal de contêineres do Mediterrâneo e historicamente dominado pela
’Ndrangheta. A partir dali, os carregamentos eram distribuídos para Sicília e
norte da Itália.
Pasquino descreveu
ainda a participação do mafioso Rocco Morabito — preso com ele na Paraíba em
2021 — e a colaboração entre diferentes clãs da ’Ndrangheta para recuperar a
cocaína escondida em navios cargueiros.
Máfia italiana manteve contato com o Comando Vermelho
Os relatos também
atingiram o Rio de Janeiro e o Comando Vermelho (CV).
Segundo Pasquino, a
máfia italiana chegou a manter contatos com integrantes da facção carioca, mas
não formalizou parceria semelhante à estabelecida com o PCC.
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| Comando Vermelho utilou drones com bombas para atingir a Polícia - Foto; Reprodução Internet |
“Ele conhecia muitos
milicianos e homens do CV, de Fernandinho Beira-Mar. Eu estive em uma reunião em
uma favela, mas jamais trabalhei diretamente com o CV porque eles não me agradavam”,
disse, referindo-se a um intermediário chamado Emanuel.
O italiano afirmou
ter se impressionado com o cenário encontrado nas favelas cariocas. “Me
espantou muito que, logo depois que entramos na favela, havia muitas pessoas
com fuzis e com tornozeleiras eletrônicas saídas da cadeia, tudo isso debaixo
dos olhos da polícia que olhava de longe, mas não podia ultrapassar o limite da
favela.”
Nos depoimentos,
Pasquino detalhou dezenas de carregamentos de cocaína enviados à Europa. Um dos
primeiros casos mencionados envolveu 440 quilos da droga transportados de
Itajaí (SC) para Málaga, na Espanha, e posteriormente apreendidos em Livorno,
na Itália.
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| Porto de Itajaí - Santa Catarina |
Segundo ele, o
carregamento pertencia ao PCC e seria retirado no porto espanhol pelo
brasileiro Nicholas Charles Evangelista Lopes, conhecido como Loko, apontado
como integrante da facção paulista. O grupo, porém, desistiu da operação por
medo da polícia espanhola. Pasquino afirmou que Nicholas atuava em nome de
Demétrio Batista de Oliveira, conhecido como Pateta ou Fantasma, acusado de ser
um dos principais narcotraficantes da América do Sul ligados ao PCC.
“A droga não era
nossa. Ela era do PCC”, afirmou o mafioso. Segundo ele, criminosos que
controlavam os portos recebiam uma porcentagem sobre os carregamentos. “Nós
devíamos pagar 20%, mas eu pedi aos brasileiros 30%, de tal modo que 10%
permanecessem com a gente.”
O italiano disse
acreditar ter sido traído por um parceiro conhecido como Il Professore, que
teria vendido parte da carga a uma família rival da ’Ndrangheta. Apenas metade
dos 440 quilos foi apreendida pela polícia italiana.
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| Foto: Divulgação Polícia Civil |
PCC convocou mafioso para “tribunal do crime”
O episódio provocou
reação do PCC. Conforme o depoimento, Pasquino foi convocado para prestar
esclarecimentos ao chamado “tribunal do crime” da facção. Recebeu um prazo para
quitar a dívida referente ao carregamento desaparecido e, caso não o fizesse,
seria executado.
“Foi informado de
que deveria responder pelo carregamento”, registraram os investigadores
italianos.
Pasquino contou
ainda que ingressou oficialmente na ’Ndrangheta em 2011 e que, anos depois,
passou a atuar diretamente na estrutura internacional de tráfico. Em 2017, foi
enviado ao Brasil para organizar uma nova rota marítima de drogas, utilizando
veleiros que saíam da Europa com ecstasy e retornavam carregados de cocaína.
Segundo ele, a
primeira remessa organizada a partir do Porto de Santos transportava 50 quilos
da droga escondidos em compartimentos externos de um navio por mergulhadores
brasileiros. “Eles usaram bolsas de cor fosforescente e, por isso, foram
percebidos pela polícia, que os prendeu”, relatou.
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| Em 2006, o PCC aterrorizou São Paulo - Foto: Reprodução |
Pasquino afirmou
ainda ter comprado criptofones para integrantes do PCC ao custo de US$ 20 mil e
revelou que a facção paulista exigia negociar apenas com mafiosos oficialmente
vinculados à ’Ndrangheta. “A facção só tratava com criminosos que pertenciam à
‘família’”, disse.
Em outro trecho do
depoimento, o italiano declarou ter sido pioneiro na técnica de esconder
cocaína sob a quilha de navios com auxílio de mergulhadores colombianos.
“Fui o primeiro a
usar a técnica de esconder cocaína embaixo da quilha dos navios”, afirmou.
Segundo ele, os carregamentos começaram com 17 quilos e depois cresceram para
110 quilos destinados a Gênova e 140 quilos enviados a Gioia Tauro.
O mafioso utilizava
o codinome Cristiano Ronaldo — referência ao jogador português, de quem se
disse admirador. Ao longo dos interrogatórios, descreveu a construção gradual
da parceria com criminosos brasileiros. “Nós partimos praticamente do zero, no
sentido de que não tínhamos os contatos, mas pouco a pouco fomos criando”,
declarou.
Autora/Fonte: Isabela Jordão / Revista Oeste
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