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segunda-feira, 27 de julho de 2026

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CASOS DO CAIS: UMA FESTA PORTUGUESA, COM CERTEZA

 

Toda vez que um navio português atracava no Porto de Santos era uma festa - e, com certeza, uma festa portuguesa

Na década de 1980, vários navios portugueses vinham ao porto e, sempre que isso acontecia, a comunidade portuguesa dava um jeitinho de subir a bordo pra visitar os patrícios.

Era quase uma romaria. Praticamente todos os donos de padaria da cidade — que dominavam esse ramo — apareciam por lá.

Além de matar a saudade da terra, iam atrás de produtos típicos: bacalhau, sardinha salgada, azeite, azeitonas… coisas que, naquela época não se encontravam com facilidade nos supermercados, como hoje.

Num sábado à noite, eu estava de plantão no prédio da Alfândega, trabalhando como Auxiliar de Vigilância e Repressão — AVR. O supervisor e o fiscal tinham saído pra fazer a ronda no cais, e fui até a porta voltada para o porto.

Foi aí que comecei a notar uma movimentação estranha:

Havia um entra e sai de pessoas carregando várias sacolas. Conversavam com um guarda portuário numa guarita de madeira, no oitão do Armazém 7, subiam a passarela e depois desciam, saindo ao lado do prédio da Alfândega, já na Praça da República. Era movimento demais pra ser coisa normal.

Com o rádio na mão, me aproximei e comecei a abordar essas pessoas.

— Parado aí! Quem é o senhor? De onde o senhor é?

— Sou o Joaquim. Da padaria Vila Nova de Foz Coa.

— E o que o senhor foi fazer no cais?

— Fui ver uns amigos no navio Muxima, que está ali no Armazém 8. Sempre que um navio da minha terra, eu e os meus amigos vamos a bordo para rever os amigos.

— E o que tem nessas sacolas?

— Umas coisinhas que ganhei…

Aí conheci mais um costume do cais.

O português me contou que entrou pelo Posto Fiscal 4, subiu no navio e resolveu sair por ali, achando que ninguém ia notar.

Falei na lata:

— Isso é contrabando! O senhor está detido e a mercadoria vai ser apreendida pela Receita Federal.

Ele ficou todo nervoso, tremia que nem vara verde, e com a voz trêmula e num sotaque carregado falou:

— Ora pois, não faça isso comigo! Pode ficar com tudo, mas me libera que eu ainda tenho que voltar para fechar a minha padaria.

Nisso, o guarda portuário viu a situação e veio correndo:

— O que tá acontecendo aí?

— Está todo mundo detido e a mercadoria apreendida.

Ele quase entrou em desespero:

— Se o fiscal voltar e ver isso, eu tô na rua! Libera o pessoal que eu te dou tudo o que eu ganhei ali na guarita!

Não parava de virem outros portugueses vindos do navio, a situação estava ficando incontrolável, e eu ali sozinho.

Na hora, pensei rápido. Eu não podia ser conivente com aquilo, mas também não queria prejudicar um trabalhador e os portugueses por causa de uma prática, que já fazia parte da rotina na atracação dos navios portugueses.

Então respondi ao guarda:

— Volta pro teu posto e não deixa sair mais ninguém por lá. Manda todo mundo sair pelo Posto Fiscal 4.

E virei pros portugueses:

— Podem ir embora, mas vão rápido. E daqui pra frente, saiam pelo lugar certo. Se o fiscal aparecer, vai sobrar pra todo mundo.

Eles ficaram aliviados na mesma hora:

— Muito obrigado, senhor agente! Muito obrigado mesmo!

E aí, virou uma festa.

O alívio foi tão grande que, no impulso, alguns começaram a me empurrar sacolas e embrulhos nas mãos, num gesto atrapalhado de agradecimento.

Na verdade, aquilo já fazia parte de uma regra não escrita do cais. Havia tortos que iam se repetindo no dia a dia, quase como certos costumes se fossem parte da rotina. E, naquela situação, o único jeito de recusar tudo de verdade seria endurecer, levar o caso adiante e acabar entregando o guarda de vez.

Tentei devolver, dizer que não precisava, mas ninguém queria ouvir. Naquela altura, já não era mais questão de aceitar ou recusar — era só fazer aquilo acabar antes que alguém aparecesse. Um já vinha com azeite, outro com sardinha, outro com azeitona, e quando percebi, já estava com os braços ocupados, querendo que eles fossem embora e aquilo acabasse o mais rápido possível do que propriamente receber qualquer coisa.

Logo depois, até o guarda, ainda atordoado com o susto, apareceu com mais um pacote na mão, insistindo no agradecimento como quem queria encerrar de vez aquela encrenca.

Poucos minutos depois — e foi por um triz — o supervisor e o fiscal voltaram da ronda

E lá estava eu: sério, rádio na mão, olhando pro cais como se nada tivesse acontecido enquanto eles estavam fora.

Quando cheguei em casa, com meio armazém português debaixo do braço, minha mãe — viúva e filha de portugueses — se encantou com aquelas delícias da terrinha.

— Meu filho, onde você comprou essas coisas?

— Fui numa festa portuguesa… e ganhei de uns amigos.

Anos depois, entrei na Guarda Portuária.

Na primeira semana, me chamaram pra jogar futebol de salão na quadra da Igreja São Judas Tadeu, no bairro do Marapé, onde a Turma “D” treinava.

Assim que entrei, um guarda veio na minha direção:

— Tô te reconhecendo… você não é o AVR que parou os portugueses atrás da Alfândega?

Na hora eu lembrei. Deu aquele gelo.

— Sou eu mesmo…

Ele riu:

— Você me deu um baita susto naquele dia… mas foi gente boa. Podia ter acabado comigo.

Aí chamou todo mundo:

— Ó, esse aqui é o AVR Carvalhal que eu contei pra vocês. Gente fina!

Todo mundo veio falar comigo, me cumprimentar, dar risada da história. Ali, o AVR Carvalhal virou o GP Carvalhal.

Depois ele se apresentou:

— Meu nome é Eduardo. Qualquer coisa na Guarda, você pode contar comigo.

Ufa, o susto passou.

Ele era da Ronda Geral, respeitado por todo mundo. Virou meu cartão de visita no novo emprego.

Sempre sorridente, querido por todos e dono de uma simpatia rara. Ele tinha um apelido improvável para um homem negro: “Moranguinho” — dizem que é porque todo dia levava suco de morango no lanche.

Olha que coincidência: depois descobri que ele trabalhava na ronda com um primo meu, que eu nem conhecia. Apesar de carregar o mesmo sobrenome, ele era mais conhecido pelo primeiro nome e pelo apelido de “Bicudo”.

Infelizmente, não convivemos muito tempo. Alguns anos depois, o Moranguinho saiu da Guarda e foi morar nos Estados Unidos.

Na Copa de 1994, durante uma transmissão, a câmera passeou pela torcida. E quem apareceu lá, torcendo pelo Brasil? Ele mesmo: o Moranguinho. Foi a última vez que tive notícia dele.

Moral da história:

O que você faz hoje pode voltar pra você lá na frente. Às vezes, uma atitude simples vira respeito pra vida toda.

Texto: Carlos Carvalhal

Ilustração: Gerada por IA — Inteligência Artificial.

* Esta é uma história memorialista, de ficção, baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são fictícios. Dizem que ela é 99% verdadeira — só não é 100% porque quem conta um conto sempre aumenta um ponto.

Leia os três últimos casos publicados clicando nas ilustrações abaixo:



Leia todos os casos publicados clicando aqui:



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