Antigamente, pelo rádio, a gente ficava sabendo de tudo o
que acontecia… até porque alguém faltava no serviço
Era tempo de festa
junina, na tradicional Praça 14 Bis, em Vicente de Carvalho, ponto certo dos
festejos daquele distrito do Guarujá.
O guarda portuário Nilson
Vaslovas, como fazia todos os dias, ia de bicicleta para o trabalho e resolveu
dar uma paradinha para conferir o movimento da festa.
Foi justamente nessa
hora que começou uma confusão.
No meio do
empurra-empurra, ecoou um disparo de arma de fogo.
Não era por
acaso que, naquela época, o lugar carregava o apelido de ‘Terra de Marlboro’ —
uma referência às propagandas de cigarro do cowboy americano, numa imagem que
se confundia com aquele velho Oeste dos filmes, dos revólveres, dos tiroteios e
da terra sem lei, como se, por aquelas bandas, qualquer coisa pudesse
acontecer.
E, naquele dia, aconteceu.
No mesmo instante,
Nilson sentiu um impacto na região da genitália.
Passou a mão no
local, viu sangue e gritou:
— Fui atingido!
Os populares
correram para ajudá-lo, enquanto alguém chamou uma ambulância. Nilson foi
levado ao pronto-socorro para ser atendido.
Já na
emergência, consciente e sem a farda, o médico examinou o paciente e pediu:
— Baixa a cueca pra
eu ver o ferimento.
Foi então que se
ouviu um barulhinho diferente no chão:
— Clinc...
clinc... clinc...
Era a bala!
O projétil, que
estava preso na cueca, havia acabado de cair no piso do consultório.
O médico
arregalou os olhos e disparou:
— Esse homem tem um
saco de aço!
Apesar do susto e do
sangramento, o ferimento era apenas superficial.
Diante do caso
inusitado, concluíram que a bala provavelmente bateu na bicicleta, ou em algum
objeto próximo, ricocheteou e acabou atingindo Nilson de raspão, justamente na região que, a
partir daquele dia, ganharia uma reputação própria.
O caso,
naturalmente, não terminaria ali. Como envolvia
disparo de arma de fogo, projétil e vítima, a polícia foi
acionada e a ocorrência acabou registrada em boletim.
Naquela época,
embora fosse proibido durante o serviço, quase todo guarda portuário carregava
um radinho de pilha no bolso. Era para ouvir música, acompanhar as notícias e,
principalmente, escutar os programas policiais.
Um dos mais famosos
era o Rádio Polícia, apresentado por Abissair Rocha, na Rádio Cultura, todos os
dias, das 8h às 9h30.
A abertura já
começava com som de tiroteio, música de suspense e aquela voz marcante anunciando:
— O Rádio Polícia
vai começar. Aqui você fica sabendo dos principais acontecimentos do submundo
do crime. A verdade nua e crua, sem retoques.
Era a senha pra
cidade inteira parar e ouvir.
Na manhã seguinte, o
caso do Nilson virou notícia.
O repórter Márcio
Harrison entrou ao vivo, direto do 2º Distrito Policial de Vicente de Carvalho,
relatando a ocorrência da bala perdida.
Tudo corria
normalmente… até chegar ao depoimento do médico, que simplesmente não conseguiu segurar o riso.
— Era a... hahahaha... era a... haha
Tentou de novo:
— Era a... hahaha... o guarda tem saco de aço! Hahaha!
Pronto. A notícia correu solta pela rádio peão, o famoso
boca a boca do cais. Foi mais rápido que rastilho de pólvora.
No dia seguinte, quando
Nilson chegou para bater o ponto, o rondante Valdemar já veio na pilha:
— O que aconteceu ontem?
Você nunca falta.
Nilson, tentando
despistar, respondeu:
— Perdi a hora,
chefe.
Valdemar não
perdoou:
— Homem com saco de
aço nunca perde a hora.
Na hora ele baixou a
cabeça, ficou vermelho e começou a suar frio.
Naquele
instante, percebeu que não adiantava mais esconder. todos já
estavam sabendo.
E, a partir
daquele dia, por onde passava, escutava:
— Olha lá o homem do
saco de aço!
E assim nasceu mais
um apelido que ficou marcado no cais.
Moral da história: No cais, um homem pode escapar de uma bala. Do apelido, jamais.
Texto: Carlos Carvalhal
Ilustração: Gerada por IA — Inteligência Artificial.
* Esta é uma história memorialista, de ficção,
baseada em fatos reais. Os nomes dos envolvidos são fictícios. Dizem que ela é
99% verdadeira — só não é 100% porque quem conta um conto sempre aumenta um
ponto.
Leia os três últimos casos nas ilustrações abaixo:
Leia todos os
casos publicados clicando aqui:
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