Medidas vêm na esteira de mudanças na dinâmica do tráfico
internacional diante do aperto na fiscalização do porto de Santos
O avanço das novas
rotas do tráfico de drogas pela região costeira do Brasil acende alerta em
operadores portuários e leva terminais a investir em inteligência artificial,
comprar drones submarinos e até a reduzir o uso de contêineres em remessas de
frutas ao exterior. Em vez disso, a orientação é de uso de pallets.
Sete portos
afirmaram à Folha ter tomado medidas para combater a exportação de
entorpecentes. As medidas vêm na esteira de mudanças na dinâmica do tráfico
internacional diante do aperto na fiscalização do porto de Santos.
As apreensões de
cocaína nos portos brasileiros vêm caindo nos últimos anos, segundo dados do Ministério
da Justiça. Em 2021, foram 46 toneladas de cocaína confiscadas em portos,
embarcações e rios de todo o país. Em 2025, a quantidade somou 15 toneladas.
A retração das
apreensões pode estar ligada à diversificação de estratégias criminosas, conforme
investigadores.
Um dos padrões é de
remessas menores, mais difíceis de serem detectadas, em vez de mandar centenas
de quilos ou toneladas de droga de uma só vez - neste caso, o prejuízo de uma
eventual apreensão seria muito maior. Outra mudança é o uso de outros tipos de
embarcação, como pesqueiros e veleiros.
A Receita Federal
disse que não divulga terminais considerados prioritários para a fiscalização.
Além de ser uma informação sensível, afirmou, “organizações criminosas podem
alterar simultaneamente portos de origem, escalas marítimas, destinos, cargas
utilizadas, métodos de ocultação e formas de acesso aos contêineres”.
O Porto de Paranaguá
(PR), o maior da região Sul, disse que o terminal de contêineres “é o mais
visado pelos narcotraficantes”, mas que ações adotadas de 2019 a 2025 reduziram
em 85% as apreensões no local -entre elas estão o uso de cães farejadores e sistema
de monitoramento contínuo.
O terminal é uma das
rotas mais antigas do tráfico internacional, que hoje avança também por Santa Catarina.
Foi o que levou o Porto
de Imbituba (SC) a comprar um drone subaquático para ampliar o monitoramento.
Operado remotamente, o equipamento auxilia a PF em buscas ou varreduras nos
cascos de navios a fim de identificar potenciais ilícitos ocultos nas áreas
submersas das embarcações.
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| Foto: Imagem ilustrativa |
Há vídeos que
registram as inspeções. As imagens mostram um cenário de baixa visibilidade e
repleto de algas. Quem controla o drone passa com ele por cada ponto considerado
vulnerável de um navio.
Em um dos casos, o
terminal constatou que um local havia sido manipulado dias antes porque o
aspecto de um parafuso estava mais limpo do que o local no qual ele estava
inserido.
Em abril deste ano,
o porto assinou um acordo com a Polícia Federal que “estabelece cooperação
direta entre a Superintendência Regional da PF em Santa Catarina e o porto, com
foco na atuação do Núcleo Especial de Polícia Marítima - NEPOM”. A iniciativa é
inédita, dizem autoridades locais.
A aposta em novas tecnologias
se dá também para o Porto de Navegantes (SC). A Portonave, operadora privada do
terminal, disse ter comprado dois scanners com recursos de inteligência artificial
por cerca de R$ 25 milhões.
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| Portonave - Porto de Navegantes - SC - Foto: Divulgação |
Cada equipamento
inspeciona em torno de 120 caminhões por hora. Somado ao aparelho que já
existia no local, a capacidade de fiscalização do porto passou a 4.000
caminhões por dia.
Em Itajaí (SC), a
autarquia que administra o terminal afirmou ter adquirido nos últimos anos
“veículos operacionais, drones, lanchas de patrulha, armamentos e coletes
balísticos” e implementado “sistemas de inteligência dedicados”. Outras
iniciativas envolvem cursos de mergulho e varredura em cascos de navios.
A reportagem apurou
que rotas no Norte e no Nordeste preocupam investigadores não só pela menor
estrutura dos portos regionais, mas também pelas condições das regiões onde
estão instalados -ambas as localidades enfrentam avanço de facções criminosas
que disputam territórios entre si.
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| Câmera registra aproximação de embarcação para inserir droga no casco - Porto de Santana -Amapá |
No caso de Natal, a
autarquia que administra o terminal local disse ter reduzido a exportação de
frutas por contêineres. As remessas agora se dão predominantemente por pallets.
Remessas em
contêineres continuam a existir, mas passam por um procedimento de conferência
prévia antes de serem despachadas. O novo modelo, segundo o terminal, atendeu
às necessidades do setor produtivo e ampliou o controle sobre as cargas que
passam pelo porto.
Em Pernambuco, onde
facções também miram a zona aduaneira, o porto de Suape disse acompanhar “com
especial atenção” a nova dinâmica do crime organizado, “particularmente diante
de ocorrências e movimentações identificadas nos portos do Nordeste”.
O terminal declarou
à Folha que mantém um esquema de segurança dividido em quatro pilares:
tecnologia, qualificação de pessoal, inteligência e cooperação institucional.
Não é diferente para
Fortaleza. A Companhia Docas do Ceará declarou manter “rigorosos protocolos de
controle de acesso, monitoramento e atuação integrada com os órgãos de
segurança pública” e vem ampliando investimentos em segurança.
“Em paralelo”,
afirmou, “está em andamento a modernização e expansão do sistema de
videomonitoramento, que ampliará a cobertura e a capacidade de vigilância das
instalações portuárias”.
Já a Codeba, que
administra o porto de Salvador, disse que uma das grandes ações recentes está
no recém-implementado Centro Integrado de Segurança Pública Portuária no Porto
de Aratu-Candeias.
Segundo o órgão, a
novidade servirá ao tanto ao aprimoramento das atividades operacionais quanto
da inteligência da Guarda Portuária, além dos demais órgãos que atuam no local
e é a primeira do país nesse sentido.
Especialistas
ouvidos pela Folha dizem que a diversificação nas rotas do tráfico não ocorre
apenas na origem. Para a pesquisadora Isabella Vianna Pinho, cuja tese de
doutorado analisou o mercado transnacional de cocaína, isso vale também para o
destino final no exterior. “Antes a droga ia direto para a Europa, mas hoje
temos muitas apreensões na África e na própria Ásia”, afirma.
Autor/Fonte: André Fleury Moraes / FolhaPress
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