Ação é resultado de investigação conjunta entre Brasil e
Itália e apura estrutura responsável pelo envio de drogas da América do Sul
para a Europa
A Polícia Federal (PF),
em conjunto com autoridades italianas, deflagrou, na quinta-feira (17), a “Operação
Eredità”, que investiga uma estrutura criminosa transnacional suspeita de atuar
no envio de cocaína da América do Sul para a Europa, com ligação com
integrantes da máfia italiana ‘Ndrangheta.
A operação teve como
base provas reunidas por uma Equipe Conjunta de Investigação (ECI) formada por
integrantes do Ministério Público Federal (MPF), da Polícia Federal (PF), do
Ministério Público de Turim e do Departamento Anticrime de Turim, do Raggruppamento
Operativo Speciale (ROS) dos Carabinieri. A ECI funcionou entre 2020 e 2025.
Segundo a PF, foram
cumpridos sete mandados de prisão preventiva e cinco de busca e apreensão, além
de medidas patrimoniais que incluem sequestro de imóveis e bloqueio de bens,
valores em contas bancárias e aplicações financeiras de pessoas físicas e
jurídicas investigadas.
Alguns dos alvos já
estavam presos por outras investigações. Três mandados de prisão foram
cumpridos contra pessoas que estavam em liberdade.
As diligências ocorreram
em Palhoça (SC), São Paulo, São Caetano do Sul, Santos e Americana (SP). A
investigação é conduzida pela Polícia Federal no Paraná.
Desdobramento de outras operações
A Operação Eredità é
resultado do aprofundamento das investigações das operações “Retis” e “Spiderweb”,
que identificaram, segundo as autoridades, conexões entre grupos criminosos
brasileiros e integrantes da ‘Ndrangheta para viabilizar o transporte de
cocaína para países europeus.
A nova operação
também é apontada como desdobramento das operações Samba e Mafiusi, realizadas
no Brasil e na Itália em dezembro de 2024.
As investigações
relacionaram a estrutura a pelo menos 11 apreensões realizadas entre 2019 e 2020,
que totalizaram mais de 4,6 toneladas de cocaína com destino a diferentes
países europeus. Segundo o MPF, também foi identificada uma estrutura
financeira destinada a movimentar, ocultar e dissimular recursos provenientes
do tráfico internacional.
Investigação
Segundo as
investigações, o grupo continuou utilizando o Porto de Paranaguá (PR) como uma
das principais rotas para o envio de cocaína à Europa, mesmo depois da prisão,
em 2019, de integrantes italianos ligados à ‘Ndrangheta.
De acordo com o MPF,
após essas prisões, familiares e pessoas próximas aos investigados teriam
assumido funções anteriormente desempenhadas pelos integrantes detidos,
mantendo contatos com fornecedores e operadores responsáveis pela logística e
pela movimentação financeira das remessas.
As apurações indicam
que a estrutura investigada participava de diferentes etapas da cadeia do
tráfico, incluindo a obtenção, o transporte e o armazenamento da cocaína antes
do envio ao exterior.
Entre os destinos
apontados nas investigações estão Itália, Bélgica, Holanda, França e Portugal.
O destino final de parte da droga seria a região do Piemonte, no norte da
Itália.
Segundo o MPF, havia
aproximadamente 2,2 toneladas de cocaína armazenadas no Brasil e destinadas à
exportação. Parte dessa carga foi apreendida. As investigações apontam,
contudo, que a estrutura teria continuado a obter novos carregamentos, chegando
a um total superior a 4,6 toneladas relacionadas às apreensões investigadas até
meados de 2025.
A PF também
identificou pessoas que, segundo a investigação, seriam responsáveis pelo
transporte de cocaína armazenada em São Paulo até o Paraná, de onde a droga
seria encaminhada para a Europa.
A cooperação entre
investigadores brasileiros e italianos também teria permitido esclarecer a
identidade e o papel de pessoas que anteriormente apareciam apenas por apelidos
ou codinomes nas investigações.
Estrutura financeira
Além da logística do
tráfico, as investigações identificaram uma estrutura destinada, segundo as
autoridades, a movimentar e ocultar recursos provenientes da venda de cocaína.
Parte das operações
financeiras teria utilizado o chamado “sistema de dólar-cabo”, mecanismo
informal de compensação utilizado em operações internacionais, no qual valores
são disponibilizados em diferentes países sem necessariamente ocorrer uma
transferência bancária internacional convencional.
Segundo os
investigadores, operadores financeiros teriam capacidade de disponibilizar
recursos em diferentes localidades para financiar a aquisição da droga e os
custos relacionados à logística das remessas.
A PF também
investiga a utilização de mecanismos de ocultação patrimonial e lavagem de
dinheiro para dificultar a identificação da origem e do destino dos recursos.
Comunicações criptografadas
A investigação
também analisou mensagens trocadas por plataformas de comunicação
criptografadas, além de dados telemáticos, registros financeiros, informações
sobre contêineres e outros elementos obtidos no Brasil e no exterior.
Segundo os
investigadores, o cruzamento desses dados permitiu reconstruir parte da
estrutura e identificar funções desempenhadas por diferentes integrantes.
A PF afirma ainda
que parte dos recursos provenientes da venda da cocaína na Europa teria sido
utilizada para financiar novas operações de tráfico.
Advogado é alvo da investigação
Um dos alvos da
operação é o advogado Patrick Raasch Cardoso, de Santos, cuja prisão preventiva
foi determinada pela Justiça Federal do Paraná.
Segundo informações
divulgadas pela imprensa com base na investigação, Raasch é suspeito de atuar
na estrutura financeira do grupo e de fazer a intermediação de comunicações
entre integrantes da organização. Ele nega envolvimento, e sua defesa informou
que pretende recorrer da prisão.
Cooperação internacional
A investigação
contou com a cooperação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, no
Brasil, e do Ministério Público de Turim, por meio da Direção Distrital
Antimáfia (DDA), sob coordenação da Direção Nacional Antimáfia e Antiterrorismo
e do Raggruppamento Operativo Speciale Carabinieri (ROS Carabinieri), na
Itália.
A cooperação
permitiu o compartilhamento de informações e a realização coordenada de
diligências relacionadas à investigação de uma estrutura criminosa com atuação
transnacional. A Europol também prestou apoio à investigação.
Crimes investigados
Segundo a PF, os
investigados poderão responder, de acordo com a participação individual de cada
um, pelos crimes de tráfico internacional de drogas, associação para o tráfico,
organização criminosa e lavagem de dinheiro, sem prejuízo de outros delitos que
possam ser identificados no decorrer das investigações.
Nome da Operação
O nome da operação,
Eredità, significa “herança” em italiano.
Segundo a explicação
apresentada pelo MPF, o nome faz referência à hipótese investigativa de que
familiares e pessoas próximas teriam assumido funções anteriormente
desempenhadas por integrantes da estrutura ligada à ‘Ndrangheta após as prisões
realizadas em 2019.
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