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segunda-feira, 1 de junho de 2026

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POLÍCIA FEDERAL E RECEITA FEDERAL ENTRAM EM CHOQUE POR ATUAÇÃO EM AEROPORTOS


A disputa entre as duas instituições vem desde dezembro de 2024, quando a PF acusou a Receita de ter frustrado uma investigação sobre tráfico internacional de drogas

Uma série de desentendimentos entre a Receita Federal e a Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos agravou a rixa entre as duas instituições, que estão em pé de guerra sobre as atribuições dos auditores fiscais em alfândegas.

De um lado, auditores da Receita acusam a Superintendência da PF em São Paulo de proibir a cooperação com seus servidores em ações em Guarulhos.

Integrantes da PF ouvidos sob reserva pelo UOL negam que isso tenha ocorrido e apontam episódios em que a Receita teria extrapolado suas competências em ações de apreensão de drogas.

A disputa entre as duas instituições vem desde dezembro de 2024, quando a PF acusou a Receita de ter frustrado uma investigação sobre tráfico internacional de drogas ao abordar um suspeito antes do planejado.

A Receita, por sua vez, afirmou que havia identificado movimentação da quadrilha no entorno do aeroporto em ao menos seis situações e que acionou a PF em duas delas, sem obter resposta.

Segundo a PF, a abordagem teve como objetivo uma filmagem do programa Aeroporto: Área Restrita, que mostrava o dia a dia dos auditores no aeroporto.

No início deste ano, a Polícia Federal proibiu a gravação nos aeroportos de todo o país — decisão que auditores atribuem a "ciúmes" dos policiais.

O conflito se aprofundou em fevereiro, quando agentes da Polícia Federal encontraram, na área de mata nas imediações do Aeroporto Internacional de Guarulhos, três servidores da Receita Federal vestindo roupas táticas, portando armas longas e sem exibir crachás de identificação visíveis.

A PF instaurou uma investigação após constatar a presença dos três analistas tributários naquela área, armados e com equipamentos de operação especial.

Imagens de câmeras de segurança registraram um dos analistas arremessando uma sacola plástica sobre o muro do aeroporto.

Com base nisso, a PF solicitou a prisão preventiva dos investigados. No inquérito instaurado, as suspeitas incluíam usurpação de função — por "se passarem" como PFs —, facilitação ao contrabando e associação criminosa.

A Justiça Federal em Guarulhos negou o pedido e arquivou a investigação por falta de indícios, concluindo que não havia elementos que justificassem a continuidade da apuração e que se tratava de uma ação regular.

Sobre o uso de armamento pesado, a Receita afirmou que o porte de armas longas e o uso de roupas táticas estão previstos em seus manuais operacionais e eram justificados pelos riscos envolvidos na operação.

O órgão disse ainda que a sacola arremessada sobre o muro continha apenas o uniforme que um dos funcionários havia esquecido no local.

O Conflito

O conflito de competências não se limita a Guarulhos. Em outros portos e aeroportos, servidores também relatam que há problemas na divisão de tarefas entre as instituições.

A Polícia Federal tem atribuição de investigar e reprimir o tráfico internacional de drogas. A Receita Federal é responsável pela fiscalização aduaneira em recintos alfandegados — ou seja, portos e aeroportos.

Na prática, as duas funções se cruzam. Quando um contêiner ou uma mala chega ao país, é a Receita que inspeciona a carga. Se encontrar drogas, precisa acionar a PF, que assume a investigação criminal.

O problema é que não existe um protocolo claro definindo quando a Receita deve parar e a PF deve começar.

A Receita sustenta que, como autoridade alfandegária, tem precedência nos recintos que administra — incluindo poder de abordagem e apreensão.

A PF, por outro lado, diz que a precedência da Receita vale apenas na esfera administrativa, não nas investigações criminais, e que auditores fiscais não têm atribuição legal para conduzir ações de policiamento ostensivo ou realizar buscas de natureza criminal.

Linha do tempo do conflito

  • Dez/24 - PF diz que Receita atrapalhou operação de combate ao tráfico em Guarulhos
  • Jan/26 - PF barra gravações de "Aeroporto: Área Restrita"
  • Fev/26 - PF aborda auditores e pede prisão por usurpação de função
  • Mar/26 - Justiça nega prisões e arquiva caso
  • 18.mar - TCU determina criação de regra conjunta entre PF e Receita
  • 19.mar - Receita obriga curso aduaneiro a policiais e outros credenciados

Auditoria do TCU

Uma auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União) concluída em março deste ano analisou a atuação de órgãos portuários, aduaneiros e policiais no combate ao tráfico de drogas nos principais portos brasileiros.

O TCU concluiu que a sobreposição de funções entre PF e Receita — sem acordos claros sobre quem faz o quê — está prejudicando investigações criminais, especialmente pela quebra da cadeia de custódia de provas.

A corte identificou casos em portos de Santos e Paranaguá nos quais a Receita abriu contêineres e manipulou evidências antes da chegada da perícia da PF, inviabilizando a coleta de vestígios.

A determinação do tribunal foi que as duas instituições elaborassem uma portaria conjunta em 180 dias, definindo prazos e responsabilidades para cada etapa após a descoberta de drogas, o que ainda não ocorreu.

Exigência de curso

Um dia após a publicação do acórdão do TCU, em 19 de março, a Receita publicou uma portaria criando a obrigação de um curso ministrado pela Receita Federal para todos que atuam em áreas alfandegadas, incluindo policiais.

A portaria foi considerada retaliatória pela PF, que vê a exigência como ilegal, já que policiais já estariam capacitados a atuar nessas áreas.

Na semana passada, o chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes em São Paulo, Kleber Massayoshi Isshiki, foi destituído do cargo pela Polícia Federal.

Auditores ouvidos pelo UOL atribuem a exoneração a uma retaliação por ele ter autorizado uma operação em colaboração com a Receita em Guarulhos.

Na operação, no início de maio, foram presos dois homens e apreendidos cerca de 100 quilos de maconha, carga vinda da Tailândia.

Procurada sobre a exoneração, a superintendência da PF em São Paulo disse que "eventuais alterações em funções de chefia e coordenação integram a dinâmica administrativa e gerencial da instituição".

"A PF esclarece, ainda, que as decisões relacionadas à composição de equipes e designação de gestores observam critérios internos de conveniência administrativa, alinhados às estratégias institucionais e às necessidades operacionais de cada setor."

Além disso, a PF diz manter cooperação institucional com diversos órgãos de fiscalização, controle e persecução penal, "sempre nos limites das competências legais de cada instituição e em conformidade com os normativos aplicáveis".

Autora/Fonte: Natália Portinari / UOL


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