Uma rota emergente da cocaína conecta Colômbia, Suriname,
Guiana Francesa e o estado do Amapá, no Brasil.
A expansão do CV
(Comando Vermelho) e do PCC (Primeiro Comando da Capital), aliada à atuação de
facções locais do Norte, ampliou o uso do Amapá como alternativa para a
exportação de cocaína com destino à Europa. O dado faz parte do estudo do pesquisador
Gabriel Funari, da Global Initiative Against Transnational Organized Crime.
Segundo o documento,
o movimento ocorre em meio a disputa pelas rotas amazônicas e de aumento da
sofisticação das operações criminosas, dominado especialmente pela organização
do Rio de Janeiro.
Uma rota emergente
da cocaína conecta Colômbia, Suriname, Guiana Francesa e o estado do Amapá, no
Brasil.
Facções regionais
como a FTA (Família Terror do Amapá), APS (Amigos Para Sempre) e a UCA (União
do Crime do Amapá) atuam na recepção e no armazenamento das drogas. Enquanto CV
e PCC estão envolvidos na exportação de cocaína de alta pureza, e também
fornecem a pasta-base da cocaína a esses grupos para abastecer o mercado local.
O estudo cita que
traficantes passaram a explorar com maior intensidade, na última década, a
região de Macapá, na foz do rio Amazonas, e o porto internacional de Santana,
além de ilhas e áreas fluviais próximas à região.
Entre 2023 e 2025, a
PF (Polícia Federal) apreendeu 637 kg de cocaína no Amapá. Segundo o órgão, o volume
é considerado alto para o estado. As drogas apreendidas tinham a Europa como
destino.
Medo surge no Amapá
Uma moradora do
Bailique, arquipélago de Macapá, que preferiu não se identificar por medo das
facções, contou que, em 2023, uma casa na Vila Progresso, uma das ilhas da região,
era ocupada por um grupo de estrangeiros.
Segundo ela, o
imóvel era utilizado como ponto de apoio para receber e despachar cocaína,
aproveitando a localização estratégica da ilha para a movimentação da droga.
"Passava um navio em frente à casa com drogas. Era esse o movimento. As
pessoas viam e ficavam com medo", diz.
Hoje, a casa está
abandonada depois que os vizinhos passaram a desconfiar da movimentação. Embora
o grupo tenha deixado aquele imóvel específico, o transporte de drogas na
região continua intenso, utilizando barcos de madeira tanto para abastecer o mercado
interno quanto para alimentar as rotas internacionais.
O receio dos
moradores ocorre em um estado marcado por altos índices de violência. O Amapá
registrou a maior taxa proporcional de homicídios do país, com 45,7 mortes por
100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência 2026. Do total, 35% das mortes
decorreram de intervenções policiais.
O estudo também
aponta limitações na estrutura de investigação do tráfico de drogas no estado.
A Divisão de Combate a Narcóticos da Polícia Civil do Amapá conta com 10
agentes e cinco viaturas para atuar em todo o território estadual, que tem cerca
de 142 mil km².
Por que a mudança
Durante anos, a
região de Belém, no Pará, especialmente o Porto de Vila do Conde, concentrou parte
importante das exportações internacionais de cocaína. Mas o aumento da
fiscalização, com a instalação de scanners e o reforço do efetivo de segurança,
somado à predominância do CV na região portuária, contribuiu para o
deslocamento de parte das operações em direção ao Amapá, segundo Funari.
Ele cita que o
estado também oferece características que interessam às facções. "É
isolado do restante do país por rodovias, tem grande parte do território
coberta por floresta e possui acesso direto ao Atlântico", explica Funari.
Segundo Funari, o
quilo de cocaína, comprado por cerca de R$ 5.200 nas regiões produtoras da
Colômbia e do Peru, chega a valer entre R$ 13 mil e R$ 18.100 ao entrar na
Amazônia brasileira e pode alcançar R$ 25.900 antes de seguir para a Europa. No
varejo europeu, o valor varia entre R$ 293,5 mil e R$ 410,9 mil.
Além do tráfico de
cocaína, o relatório aponta que, mais recentemente, integrantes do CV
diversificaram suas atividades e passaram a atuar também na mineração ilegal de
ouro na Guiana Francesa, como forma de reinvestir os lucros do tráfico.
Confirmação
De acordo com Aiala
Colares, pesquisador do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) sobre
dinâmicas do narcotráfico na região amazônica , o Amapá sempre esteve inserido
em uma rede de contrabando e tráfico de drogas. "Só que nos últimos anos uma
articulação que envolve as Guianas e parte do Suriname passou a se direcionar
também para o estado, tendo como ponto estratégico o Porto de Santana",
explica.
O relatório também
corrobora a afirmação de Colares ao apontar que surgiu uma nova rota internacional
que conecta Colômbia, Suriname, Guiana Francesa e Amapá.
Segundo Colares, o
interesse das organizações criminosas não está necessariamente no Amapá como um
todo, mas principalmente na estrutura portuária de Santana.
Metodologia usada pelas facções
Uma das modalidades
é conhecida como rip-on, na qual carregamentos de cocaína são introduzidos
clandestinamente em embarcações antes da partida para o exterior.
A operação pode
envolver mergulhadores especializados, que escondem a droga em compartimentos submersos
dos navios. Em 2024, a Polícia Federal apreendeu 150 kg de cocaína escondidos
na chamada caixa de mar de uma embarcação atracada no Porto de Santana.
Os navios que passam
pelo porto têm como destino a Dinamarca, Alemanha, Irlanda, Portugal, Rússia,
Espanha e Reino Unido, além do Sudeste Asiático e do Japão. As embarcações com
destino a Portugal são os alvos mais frequentes dos traficantes para o transbordo
de cocaína no Porto de Santana.
![]() |
| Porto de Santana |
A rota começa no
norte da Colômbia, de onde a cocaína é enviada ao Suriname por pequenas aeronaves
ou lanchas. De lá, a droga segue diretamente para a Europa ou chega ao Amapá
por via aérea ou fluvial, passando pela Guiana Francesa. Ainda pouco utilizada
em comparação com a rota pelo rio Amazonas, essa conexão surgiu nos últimos
cinco anos e reforça a importância crescente do Amapá no tráfico internacional
de cocaína.
Trecho do estudo
O documento também
registra o surgimento do uso de embarcações submersíveis. Em março de 2025,
autoridades portuguesas apreenderam 6,6 toneladas de cocaína em uma operação
relacionada a esse tipo de transporte.
Segundo policiais
citados no levantamento, submersíveis vêm sendo empregados com frequência crescente
no tráfico pela região, embora ainda sejam menos comuns do que operações de
rip-on e o transporte por embarcações menores.
A maior apreensão de
cocaína no estado ocorreu no início de junho de 2025, quando as polícias Federal
e Civil encontraram 400 kg de cocaína em uma área rural de Macapá. O relatório
aponta que a carga pertencia ao CV e aguardava uma operação para ser colocada
em navios que seguiriam para Portugal.
Em resposta ao UOL,
o Governo do Amapá disse ter realizado os maiores investimentos contra o crime
organizado e no enfrentamento ao tráfico de drogas no estado. "O trabalho
na fronteira, especialmente, no município de Oiapoque conta com entrega de
drones, viaturas, notebooks, Glocks, fuzis e obras. Em todo o estado, o combate
ao crime organizado possui investimento de mais de R$ 19 milhões",
enfatizou em nota.
Autor/Fonte: Carlos Madeiro e Beatriz Carneiro - Colunista do UOL, em Alagoas, e do UOL, em SãoPaulo
* Esclarecemos que a a publicação é de inteira responsabilidade do autor e do veículo que a divulgou. A nossa missão ao republicar é manter informado àqueles que nos acompanham, de todos os fatos, que de alguma forma, estejam relacionados com a Segurança Portuária em todo o seu contexto. A matéria veiculada apresenta cunho jornalístico e informativo, inexistindo qualquer crítica política ou juízo de valor. O espaço está aberto para a manifestação das pessoas e empresas citadas nesta reportagem.










Nenhum comentário:
Postar um comentário
Os comentários publicados não representam a opinião do Portal Segurança Portuária Em Foco. A responsabilidade é do autor da mensagem. Não serão aceitos comentários anônimos. Caso não tenha conta no Google, entre como anônimo mas se identique no final do seu comentário e insira o seu e-mail.