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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

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O GOSTO AMARGO DO AÇÚCAR: O COMÉRCIO DE COCAÍNA ENTRE O BRASIL E A ÁFRICA OCIDENTAL


A intrincada relação entre as exportações brasileiras de açúcar e o tráfico de cocaína na África Ocidental

No último trimestre de 2025, três navios graneleiros provenientes de Santos carregados com açúcar foram interceptados pelas autoridades nigerianas com cocaína escondida a bordo, resultando na apreensão das embarcações e na prisão de suas tripulações.

Mercado mundial de açúcar - Dominância no comércio global

Dados recentes da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) indicam uma queda de 12% nas exportações de açúcar, com volumes recuando de 38,2 milhões de toneladas em 2024 para 33,8 milhões de toneladas no ano passado. Consequentemente, a receita FOB caiu de US$ 18,6 bilhões para US$ 14 bilhões, principalmente devido a uma queda de 20% nos preços internacionais da commodity.

Açucar: produção e exportação mundial, em milhões de tonelada - Fonte USDA/DAS

Apesar dessa queda temporária, o Brasil mantém confortavelmente sua posição como o maior produtor e exportador mundial de açúcar, status que deverá manter nas próximas safras. A abundante safra de cana-de-açúcar do país, aliada a uma combinação favorável de etanol e açúcar, deverá resultar no segundo maior nível de produção e exportação durante o ciclo 2025/26, ficando apenas ligeiramente atrás de 2023/24.

Produção e exportações de açúcar do Brasil

A maior parte do açúcar exportado dos portos brasileiros provém dos estados do Centro-Sul. O estado de São Paulo (SP) responde por 60% da produção nacional, seguido por Minas Gerais (MG) com 14% e Paraná (PR) com 8,5%. O açúcar produzido em São Paulo, Minas Gerais, Goiás (GO) e em parte do Mato Grosso do Sul (MS) é normalmente exportado por Santos, o maior e mais movimentado porto da América Latina, enquanto o do estado do Paraná é enviado pelos portos de Paranaguá e Antonina.

Receitas de exportação de açúcar do Brasil em 2025 por estado produtor - fonte: MDIC/ComexStat

Em 2025, o açúcar ocupou o quarto lugar entre as exportações de produtos sólidos a granel, atrás apenas de minério de ferro, soja e milho. De janeiro a novembro do ano passado, os portos brasileiros movimentaram aproximadamente 27 milhões de toneladas de açúcar a granel, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ).

Notavelmente, Santos foi responsável por 68% das exportações de açúcar do ano passado, com cerca de 19,5 milhões de toneladas do produto. O complexo portuário de Paranaguá/Antonina veio em seguida, com 6 milhões de toneladas (21% dos embarques), enquanto Maceió, no litoral Nordeste, contribuiu com 1,1 milhão de toneladas (4%).

Principais portos de movimentação de açucar e participação, jan-nov 2025, em toneladas - fonte: Antaq

Os principais países de destino incluíram a China, que recebeu 18% das exportações brasileiras de açúcar, a Índia (8,8%), Bangladesh (6,8%), a Indonésia (6,7%) e os Emirados Árabes Unidos (6,3%).

Comércio de cocaína entre o Brasil e a África Ocidental - Exportações de açúcar para a África

Em 2025, o Brasil exportou açúcar para 150 países em todo o mundo, sendo 37 deles na África. Os principais importadores nesse continente incluíram a Argélia (6,2% das exportações), a Nigéria (4,7%), o Egito (4,1%) e o Marrocos (4,1%) – notavelmente, quase um terço de todas as commodities exportadas do Brasil para a África eram compostas por açúcar a granel.

A Nigéria emergiu como a maior importadora de açúcar brasileiro na África Ocidental. Em 2025, 66% de todas as suas importações do Brasil consistiram nessa commodity, seguida por petróleo e derivados (11%) e soja (4%). A maior parte dos carregamentos de açúcar para a Nigéria tinha origem no porto de Santos, na costa de São Paulo, conhecido pelo seu impressionante volume de exportações e pela travessia transatlântica relativamente curta até a África Ocidental.

Participação das compras de remessas de açúcar por região, jan-dez 2025 - Fonte: MDIC/ComexStat

Figura 4: Participação das compras de remessas de açúcar brasileiro por região, jan-dez 2025. Fonte: MDIC/ComexStat

Rota de tráfico de drogas consolidada

Por décadas, as nações da África Ocidental têm servido como pontos de transbordo essenciais para a cocaína contrabandeada através da costa leste da América do Sul para o lucrativo mercado consumidor europeu. O tráfico de drogas entre esses continentes tem empregado vários métodos, incluindo o transporte aéreo de drogas (mulas) que carregam pequenos pacotes em voos comerciais, bem como quantidades maiores transportadas em navios de carga, onde as drogas são escondidas dentro de contêineres e cargas gerais.

Embora o Brasil não produza cocaína, sua infraestrutura de transporte bem desenvolvida — composta por rodovias, portos marítimos e aeroportos — é incomparável à de seus vizinhos sul-americanos, estabelecendo-o como um importante centro logístico para o transbordo de drogas ilícitas. O Brasil compartilha extensas fronteiras, em grande parte desprotegidas, na Amazônia com os três maiores países produtores de cocaína: Bolívia, Colômbia e Peru. Ao sul, faz fronteira com o Paraguai, outro importante ponto de trânsito de drogas na América do Sul.

Principai países de partida ou trânsito de carregamento de cocaína, conforme descrito nas apreensões relatadas entre 2020 e 2023 - Fonte: UNODC

A crescente demanda do consumidor por cocaína impulsionou um aumento na produção em toda a América Latina, levando os traficantes internacionais a adaptarem suas estratégias para transportar volumes ainda maiores de cocaína para a Europa.

Essa adaptação inclui a exploração de vulnerabilidades na segurança portuária brasileira e da África Ocidental para facilitar os carregamentos originários das fronteiras ocidentais do Brasil. Essa estratégia permite um transporte mais eficiente para a Europa, reduzindo significativamente os riscos de detecção.

Desde pelo menos 2019, países como Nigéria, Senegal, Gana e Serra Leoa têm figurado consistentemente entre os principais destinos de apreensões de cocaína transbordada pelo Brasil.

Controle e influência do PCC

O Primeiro Comando da Capital – PCC (Primeiro Comando da Capital) é o sindicato do crime mais poderoso do Brasil, originário do sistema prisional paulista na década de 1990. Inicialmente criada para combater o abuso de prisioneiros, a organização evoluiu para um importante ator no tráfico internacional de cocaína, aproveitando a localização estratégica do Brasil.

O PCC infiltrou-se em diversos setores da sociedade, incluindo as esferas civil, empresarial e política, e mantém conexões globais com outros grupos do crime organizado. É a única facção criminosa brasileira atualmente designada pelo Departamento do Tesouro dos EUA por seu envolvimento no tráfico de drogas.

O PCC controla uma parcela significativa das rotas de tráfico marítimo do país, particularmente entre Santos e portos da África Ocidental. Há relatos de que o PCC forjou alianças com redes criminosas internacionais, incluindo a máfia italiana 'Ndrangheta, grupos de tráfico nigerianos e outros.

Navios graneleiros como transportadores de drogas

Na sequência da COVID-19, organizações criminosas como o PCC desenvolveram estratégias inovadoras para sustentar o transporte de quantidades crescentes de drogas, principalmente cocaína.

Elas empregam técnicas e rotas sofisticadas e menos ostensivas, muitas vezes recrutando profissionais qualificados, como mergulhadores, sob demanda.

Esses métodos evoluíram ao longo do tempo, incorporando lições aprendidas durante a pandemia, o que permitiu que os traficantes se adaptassem às mudanças de circunstâncias e mantivessem suas lucrativas operações de forma eficaz.

Embora os navios de carga geral e porta-contentores tenham sido tradicionalmente os principais alvos do contrabando transatlântico de drogas, os navios graneleiros carregados com grãos e açúcar para a Europa e África têm sido cada vez mais explorados por traficantes para transportar cocaína para o exterior, muitas vezes sem o conhecimento ou a cumplicidade das companhias de navegação ou das tripulações envolvidas.

Ponte de drogas Santos-Apapa (Lagos)

Desde 2021, as autoridades brasileiras e nigerianas interceptaram pelo menos uma dúzia de navios graneleiros carregados com açúcar a granel, seja antes de sua partida de Santos ou na chegada ao Porto de Apapa, em Lagos.

A quantidade de drogas apreendidas variou significativamente, de alguns quilos a mais de 100 kg. Na maioria dos casos, os pacotes de drogas impermeáveis ​​estavam escondidos em espaços vazios no convés principal, enterrados sob a carga de açúcar a granel ou ocultos abaixo da linha d'água dentro dos porões de mar dos navios.

Principais rotas de tráfico de cocaína com apreensões no norte e oeste da África e nas ilhas Canárias - Fonte: UNODC

Navios descobertos com drogas a bordo foram apreendidos e suas tripulações detidas. Em um caso, dez tripulantes de um navio graneleiro que transportava açúcar de Santos para Lagos estavam detidos na Nigéria desde outubro de 2021 sob acusações de tráfico de cocaína.

Eles foram finalmente libertados em maio de 2025. Seu retorno ao país de origem ocorreu após um acordo de delação premiada com a Agência Nacional de Combate às Drogas da Nigéria (NDLEA), que resultou em redução das acusações e penas alternativas à prisão.

A tripulação pagou uma multa de 1.000.000 de nairas (aproximadamente US$ 700) e indenizações totalizando US$ 360.000, ambas cobertas pela empresa de navegação. Além disso, uma multa de US$ 4 milhões imposta ao navio foi paga pela seguradora. Ao longo de todo o processo, a tripulação manteve sua inocência.

Apreensões recentes de drogas em navios carregados com açúcar

A NDLEA realizou importantes operações baseadas em informações de inteligência ao longo do ano passado, principalmente em Lagos.

Nas últimas semanas de 2025, a agência nigeriana de combate às drogas, seja de forma independente ou em cooperação com o Serviço Alfandegário da Nigéria (NCS) e outras autoridades, apreendeu três carregamentos de cocaína escondidos em navios graneleiros que chegavam carregados com açúcar em Santos.

Alianças criminosas transnacionais

Esses incidentes recentes destacam o uso crescente da rota marítima Brasil-África Ocidental para o contrabando de drogas para a Nigéria, muitas vezes facilitando a distribuição para outros países africanos ou para a Europa. Alianças internacionais, como as formadas pelo PCC, têm desempenhado um papel crucial na movimentação de cocaína pela África Ocidental até a Europa, com países como Nigéria, Costa do Marfim e Gana servindo como pontos de trânsito importantes.

Conclusão

A intrincada relação entre as exportações brasileiras de açúcar e o tráfico de cocaína na África Ocidental ressalta as complexidades e os desafios impostos pelo mercado global de drogas ilícitas.

Apesar de uma queda relativa nas exportações de açúcar em meio à flutuação dos preços internacionais, o Brasil mantém sua posição como um dos principais exportadores para os países da África Ocidental, o que, inadvertidamente, cria oportunidades para que traficantes explorem rotas e infraestruturas de transporte legítimas.

A expansão transnacional do PCC o posicionou como uma das organizações criminosas mais complexas do mundo, exercendo influência significativa sobre o tráfico global de cocaína. Seus esforços de colaboração com outras redes criminosas e uma estrutura regulatória robusta facilitaram operações eficientes em vários continentes.

A África Ocidental emergiu como um ponto de trânsito crucial na cadeia de suprimentos de cocaína, com as operações do PCC tendo implicações de longo alcance para as economias.

Nossa publicação, Tráfico de Drogas por Navios no Brasil – Guia Prático, oferece recomendações para aprimorar as estratégias de prevenção e resposta ao contrabando de drogas. Ela descreve a política nacional de drogas e o marco legal do Brasil, detalhando os papéis das agências de aplicação da lei e das organizações de segurança portuária. Além disso, apresenta estatísticas atuais sobre apreensões de cocaína, tendências e regulamentações locais e as táticas mais recentes empregadas por narcotraficantes para contornar e explorar vulnerabilidades nos portos nacionais.

Fonte: Proinde


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